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quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Meu aniversário e eu que bato palmas
Pois é, teve o aniversário.
33 anos, a idade de Cristo. Foi uma experiência nova, aniversário um pouco anônimo. Na verdade já tinha programado o almoço, que tinha gosto de despedida e de uma nova família. Teve direito a cardápio especial, e bolo no final, com velas e tudo. Casa de produtor de vinho é tudo de bom, bebemos um vinho branco austríaco que Pietro me deu uma aula sobre o sabor frutado e especial. Adorei. A noite um jantar com Alberto numa biosteria, imagina que numa cidade pequenininha como Cole Val'desa tem um restaurante orgânico, simples, delicioso, biológico. Fácil assim.
Essa coisa de sentir um carinho grande por pessoas que você conhece a pouco tempo é novo pra mim. Me lembro que antes de viajar, Meroca, uma amiga queridíssima me disse vai mesmo, vai conhecer o mundo, fazer amigos. Pra mim soou estranho. Pensava que amigos era coisa de convivência, com tempo, contato. Não se fazia amigos de verdade assim, em viagem. E este deve ter sido meu maior aprendizado. Tantas pessoas que num encontro de um dia já se tornavam queridas. Imagine então a família Majnoni, que desde o Brasil a Aurora já era uma super amiga e aqui nos tornamos verdadeiras irmãs. Nesta altura eu já tinha adotado o pai dela, Pietro, o irmão, tia, prima, gato, todos já moravam em meu coração! Aqui incluo duas mulheres lindas, que são exemplos para mim: Elena a irmã de Pietro e Christiane, a namorada. Não tenho palavras para agradecer a esta família. Foram muitos momentos especiais, divertidos e de aprendizado. O almoço de aniversário só podia ser ali, "minha casa" como dizia Pietro toda vez que eu retornava e exausta das viagens e andanças dormia horas e horas, como quem volta pra casa...
Aproveito o aniversário para agradecer a estes velhos novos amigos que fizeram desta viagem algo muito importante para mim, a descoberta deste amor que pode permear pessoas que mal se conhecem, mas que se conectam numa energia sutil, como se estes encontros já fossem programados de outros planos e aqui só temos que trocar um olhar e sorrir, foi o prêmio da viagem, sem sombra de dúvidas!
Aos amigos de Pádua, Davide, Simone e Sara, Paride e Vittoria. Vittoria foi a primeira pessoa que me comuniquei melhor (melhor soa um pouco engraçado...) nos meus primeiros dias de Itália. Numa noite que jantamos juntas rimos muito e ela me deu um super lição que não esqueci mais. Ela tinha feito uma experiência de um ano num país da Asia, acho que Tailândia e tinha todos os problemas com a língua e me disse para não deixar de me expressar por essas dificuldades, compartilhar, mesmo que dê trabalho formular uma frase inteira ;)
Aos queridos do Piemonte, familia e amigos do Regaldo. Uma honra estar no casamento da Paola e do Flavio, obrigada pela acolhida nos primeiros dias de Itália. Quero voltar no castelo para aprender as receitas que Pati disse que me ensinava depois que eu aprendesse italiano...
Família Pasolini e aqui inclui a grande família Pasolini: wwoofers, Dado, Kiko, Walter, Annalucia, Lorenzo e todos que encontrei e conheci ali na Officinalia, lugar de gente boa, alto astral e trabalhadeira! O passeio que fizemos num rio com águas sulfurosas e depois o pic nic em San Galgano é inesquecível, dos dias mais legais que tive na Itália! Adoro todos ali, do fundo do meu coração.
Outra família querida, que me acolheu prontamente, foi a família de Angelo Rossini. Adoro todos, e aqui também incluso os amigos Massimo e Maria (que espero esteja bem). Uma paisagem especial da mesa de jantar da casa, com aquele vale à frente e as montanhas de floresta atrás.
Em Puglia encontrei um super pai, Roberto, que sinto um carinho especial inexplicável. Toda a família é demais, adoro a nonna, Mariassunta, Stefânia (outra irmã desta viagem). O Salento se tornou meu cantinho querido na Itália, tudo melhor para mim vem dali: azeite, pasta, figos, melancia, o mar... sou passional nesta hora, totalmente. Ah, Mattia e Tino, a dupla! Queridos. Mattia foi dessas amizades relâmpagos, nos vimos uma vez em Pádua e vinte dias depois estávamos viajando juntos para Puglia no carro dele, fiquei na casa dele quase uma semana (veja bem, a gente se conhecia de uma noite numa mesa de bar...) e Tino virou o meu cão também, me acordava todo dia para a passeada matinal. O que me ocasionou algumas arranhadas básicas pelos braços e pernas, mas nada que já não esteja cicatrizado, ou que diminua meu carinho por aquele cão grandão e desajeitado ;)
Em Palermo outro fenômeno da verdadeira amizade feita em segundos. Emanuele e eu nos conhecemos no ônibus, indo para a praia. Eu estava sozinha, ele também. Começamos a conversar e daí a fazer várias coisas juntos foi um pulo. Férias a dois era muito mais divertido. Mas no primeiro dia, depois deu contar que minha mãe ficava super preocupada porque eu não tinha um cartão de crédito ele me emprestou um cartão de crédito recarregável, que você vai nos correios e deposita o dinheiro. É bom porque dá pra comprar passagem, fazer reservas em hotel e tudo mais pela internet. Tinha até saldo no cartão!!! Me disse que quando eu fosse embora mandasse pelo correio. Dá pra acreditar? Esse rapaz tem um coração de ouro! E tem um cantinho no meu coração também!
Daniela e Alberto, Michele e Laura, Caterina e Massimo, queria contar como cada uma dessas duplas foi sensacional e carinhosa comigo assim do nada, amizade gratuita com uma brasileira que falava mal o italiano e que haviam conhecido num final de semana no Salento e me receberam depois em Roma. Enquanto conhecia Roma com as super histórias de Caterina só conseguia pensar como era afortunada, nenhum guia chega aos pés dessa arquiteta divertida e carinhosa. São todos maravilhosos e super convidados para virem ao Brasil!
Então agora em bloco, pra não ficar grande demais (o que não quer dizer que sou grata-compacta, sou grata com um coração dilatado por todos estes encontros). Denis, meu primeiro e bem sucedido amigo couchsurfing, às meninas Lisa, Alice, Aurora, Aurora, pelo belo final de semana de chuva e pelo carinho que todas demonstram pelo Brasil ;) , família Caramadre, à querida família de Umberto, Gaia, Leone e Augusto. Inesquecível (eu estou sempre repetindo essa história) a carinha do Leone quando eu contei que nunca tinha visto neve e o grito - Mama, mama, lei ha mai visto neve! Amigos da vendemmia, que me proporcionaram uns dias bem divertidos no meio de tanto trabalho. Podestá, Claudia, Jeancarlo e Jacopo, uma turma que queria perto de mim todo o tempo. Adoro. Outra turma que é "a minha turma" são os amigos do Le Fornaci, Michele das cabras (a gente sacaneia ele que se identifica no telefone como o cara das cabras), Lea, Fran, Ba, Massimo, Marco, todo mundo que encontrei ali é show de bola, eu me sentia em casa, entre velhos amigos! Amigos do Terra Madre, especialmente minhas amigas de infância conhecidas ali a paulista Flora e a sergipana Cibele. Familia Sica, rápida e fácil interação, assim, perfeito. Michele e Elisa, este super casal que me adotou nas minhas passadas por Turim neste final da viagem. A todos de Maggiano, Laura, Luca, Andrea e Chiara, família linda que adorei conhecer e estar juntos, Elisabeta e Nicolò, Mila, Francesco, Sérgio...Alberto, este encontro não tenho palavras, deixo pra vida dizer.
Obrigada a todos, sei que muitos nem vão ver (ou entender) este post, mas foram todos muito importantes nestes últimos meses da minha vida. E principalmente me fizeram descobrir o lugar no meu coração onde mora este amor, construído assim, rápido, mas que depois é grande e num sai mais dali...
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Hora de andar
Tenho aprendido muito sobre o momento
de partir nesta viagem. É fácil a tendência a querer ficar onde as
coisas vão bem, sei onde comer bem e barato, como chegar na praia
que eu gosto, tenho amigos, ou seja já me viro. Mas este não é o
intuito da viagem. Arriscar, buscar o novo, fuçar, estes sim são
alguns objetivos. Um lugar novo sempre tem a chance de dar certo ou
não... e uma parte minha prefere não correr o risco. A outra, que
anda super valente, fala calmamente que é preciso conquistar mas sem
se apegar, ser livre, para ser inteira. Sinto a coceirinha que diz
que é hora de ir.
Essa parte corajosa anda feliz com o
desenrolar da viagem, tenho passado por lugares incríveis, aprendido
muito, em primeiro lugar de mim mesma, depois de agricultura,
alimentação, cultura, tudo aquilo que eu buscava (e muito mais...).
Mas principalmente tenho conhecido muita gente maravilhosa no
caminho. No final acho que o mais rico é essa troca com outro ser
humano, na hora que dois mundos diversos se encostam e eu absorvo um
pouco do outro e ele de mim. Não importa quanto seja, sempre saio
diferente (pra melhor!) quando faço um novo amigo.
Vou embora da Puglia muito mudada,
muitas pessoas, conversas, músicas, comidas me tocaram profundamente. Aqui foi
onde, até agora, estive mais perto do verdadeiro espírito slow food
que procuro. Aquele que para mim é verdadeiro, de pessoas que
simplesmente vivem, respirando uma forma genuína de tratar a
agricultura, a alimentação, a tradição. Simples e saborosa...
Termino hoje com uma conversa que tive com o
Roberto outro dia a caminho do mar. Ele me falava de um outro sentido
que temos quando se trata de saborear o alimento. Não é o olfato,
visão, paladar ou textura (tato), mas é todos juntos ao mesmo
tempo. Não é uma coisa física, que se pode medir ou ajustar, mas
dependendo pode te fazer arrepiar ao comer ou simplesmente sorrir,
feliz... Tem a ver com a forma como o alimento foi preparado, depende
da pessoa que o fez se estava realmente presente naquela ação ao
fazê-la. Ela tem que estar contente, se não não é possível
temperar com este sabor. Pode-se dizer que é cozinhar com o coração, ou seguir sua intuição, depende do estado da alma.
Tem que fazê-lo com carinho e respeito, pela terra e pelo alimento.
Depois tem que cozinhar numa espécie de dança, o gesto, a forma
como joga o sal ou tempera, o movimento com as colheres, a fluidez
dentro da cozinha, a alegria. Assim a comida feita vira a expressão
de sua arte, sua forma de mostrar fora algo que vai dentro. Mesmo que
seja um jantar só para você mesmo.
Parto já com saudades da família Polo. Aqui Roberto, Stefania e eu, curtindo o mar azul de Salento.
Vou levada pelo vento à Sicília. Sem
muitos planos confesso, com uma vontade enorme de viajar de bicicleta
e comer cuscus... ah e de conhecer a árvore do pistache!
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Figos para minha mãe
Um dos motivos que me trouxe à Puglia
foi uma conversa com Vittória, uma amiga de Padua, que me disse que
aqui era a terra do figo e que agosto era o mês da safra. Isso
ativou alguma coisa dentro de mim. Não sei explicar bem e pode
parecer que sou viciada em figo, mas foi como um carinho, uma
lembrança boa que me guiava, e eu vim. Eu não sou viciada em figo,
minha mãe é. Eu gosto dele fresco, gosto das sementinhas estourando
na boca misturadas à aquelas cobrinhas minúsculas, tenho certeza
que Ferran Adria
inspirou muitas de suas experiências gastronômicas no figo. Minha
mãe gosta de tudo de figo. Do tradicional doce de figo mineiro ao
rami. Vê-la feliz é chegar em casa com um pacote de figo seco.
Chega a época do figo verde, e lá tá ela com um doce que
encomendou da amiga que trabalha na cantina da escola ou comprou da
senhorinha da feira de Entre Rios...Quando fui à Colômbia trouxe de
presente biscoito, tipo goiabinha, só que de figo, só para ela.
Minha paixão com figo é coisa recente, a dela não, me lembro ainda
criança que não entendia bem sua alegria ao encontrar uma lata de
figo rami no mercado. Isso era coisa rara naquela época, mais que
rara era um produto de festa, especial. Ela sempre soube o que era
bom, eu demorei um pouco...
Aqui encontrei uma variedade de figos
impressionante, pequeninnho verde, grande verde com a polpa branca,
com a polpa vermelha, roxo com a polpa mais vermelha ainda, é um
desfile de figo. E tem figueira como tem goiabeira em Entre Rios, ou
cajueiro em Aracaju. Assim, na rua, pra todo lado, todo terreno
baldio é uma plantação. Os carros param na beira da estrada para
os motoristas colherem figo. Eu provo todos até ter meu preferido.
Nas idas e vindas procurando Rosalinda eu que me perdia debaixo de
uma figueira nova, que eu ainda não tinha experimentado.
Experimentei também pela primeira vez
o figo da india. A primeira experiência foi colhê-los e confesso
não foi muito boa, ele é cheio de espinhos pequenininhos, um vento
é suficiente para ter espinho nas suas costas, pé, braços. Sem
falar nas mãos, mesmo colhido com uma sacola plástica de proteção.
A segunda experiência foi bem melhor, comê-los! Uma fruta muito
delicada de sabor. Gostei da textura e do frescor e das sementinhas,
maiores que a do figo normal, mas gostosas também. A terceira
experiência foi uma lenda que contaram enquanto comíamos as figos
da india na pizzada da minha despedida no Sarruni. Contam que estes
figos eram servidos no café da manhã tradicionalmente e que isto
tinha começado nos locais de videira, na época da colheita. Era uma
forma de fazer com que as pessoas que colhiam não comecessem a uva
pois existia uma lenda que dizia que comer uva e figo da india era
uma bomba para o intestino, uma semana sem ir ao banheiro, no mínimo
As pessoas tinham medo, mais ou menos como nós com a manga com
leite. Gosto dessas histórias populares, meio lenda meio verdade. Eu
por via das dúvidas não cheguei perto das uvas essa noite.
Mãe, não posso levar os figos mas fiz as fotos de presente!
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Abobrinha, Berinjela e Pimentão
Conheci esta receita inicialmente com
berinjela, mas estou me controlando para variar as receitas que posto (porque aqui se come muita berinjela e eu sou fã da dita cuja, um pouco tendenciosa inclusive) e eis que
acabei experimentando com abobrinha e pimentão amarelo. Fica ótimo
com todos, é super simples, mas tem pequenas surpresas no sabor que
fazem a diferença:
Ingredientes
abobrinha ou berinjela ou pimentão
óleo para fritar (pode ser azeite..)
azeite
aceto balsâmico
sal, alho
hortelã
Preparo:
Se for abobrinha ou berinjela cortar no
sentido longitudinal em fatias e fritar. Dá para fazer na grelha
também. Mas aqui o pessoal gosta mesmo é de fazer frito, é a terra da oliva afinal! Espalhar uma camada numa travessa e temperar com sal,
azeite, aceto, um pouco de alho bem batidinho e hortelã. Sempre
temperar depois de uma nova camada de legume. O aceto e o hortelã
dão um toque diferente e fresco ao prato.
Agora se você fizer com o pimentão é
diferente: primeiro colocar o pimentão inteiro no forno, sem tirar
nada só lavado. Quando começar a tostar umas partes tirar do fogo e
retirar a casca. Quanto mais quente o pimentão mais fácil a casca
se solta, por isso vale a pena queimar um pouquinho as mãos.
Depois disso cortar em filetes
compridos, espalhar na travessa e usar o mesmo tempero aí de cima e
alcaparras.
Não experimentei tudo junto, mas deve
ficar bom também.
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puglia
domingo, 5 de agosto de 2012
Alcaparras
Tá vendo estes matinhos nascendo nesta
ruína da torre? Pois é, alcaparras.
Elas nascem assim, selvagens, naturalmente. Dizem que é difícil cultivá-la em casa, não é muito obediente, nasce onde e quando quer. Vi várias literalmente brotando da pedra.
Elas nascem assim, selvagens, naturalmente. Dizem que é difícil cultivá-la em casa, não é muito obediente, nasce onde e quando quer. Vi várias literalmente brotando da pedra.
Esta da foto é em Santa Maria de Leuca, a última cidade do salto da bota, onde o mar Adriático e Iônico se encontram. E as alcaparras ali mirando tudo...
sábado, 4 de agosto de 2012
A redenção da Ricota
Hoje não havia hóspedes para o
jantar. Foi bom para conversar com calma, saborear tranquilamente cada prato
servido, só a família e eu. Falo sem parar da minha completa admiração pela
ricota que eles fazem. E eles começam a me contar mais da história deste
queijo, e fiquei boquiaberta, da mesma forma quando provei a primeira ricota
que o Roberto me ofereceu.
Estou completamente viciada.
Raspo os pratos onde elas são servidas enquanto levo a louça para a cozinha.
Fico de olho na porção servida a algum hóspede torcendo para que ele não coma
tudo. Só falta sonhar a noite, porque de dia já faço.
Um pouco de história para
quem, como eu, pensava que ricota era aquele famoso queijo das dietas. Não, a
ricota merece seu lugar de honra junto aos queijos de primeira linha. Aquela
outra é algo completamente diferente, a prima anoréxica da ricota de verdade.
Primeira lição: a ricota é
italiana. Tem este nome porque é levada ao fogo duas vezes (ri – repetição,
cota – cozida). Da primeira se faz o queijo e sobra o soro, que depois volta ao
fogo com um pouco de leite e sal para que surja, como num passe de mágica,
aqueles gominhos macios em cima na panela. Depois é só recolher esta massa que
se forma, colocar numa forma de queijo e assim que o excesso de água sair,
comer.
Sim, ela é feita para ser
comida fresca, se possível ainda morna. É desse jeito que ela conserva o sabor
e a textura ideais. O sabor é levemente doce, com um pouco de sal, suave,
perfeito com salgado e como recheio de sobremesas, muito comum nos doces
sicilianos. A textura é cremosa, um cremoso diferente porque é muito leve. Não
é pesado nem denso, quase derrete na boca.
Enquanto aprendo, vou comendo
a ricota do jantar. Mas esta está um pouco diferente das que comi até aqui. A
Nonna me explica que é porque já está velha, foi feita antes de ontem, é o
limite para consumi-la. Ricota com mais de dois dias não presta, não é ricota
italiana.
Exijo retratamento púplico. Discursos
em cadeia nacional. Conferências na ONU. Devolvam à ricota o que é dela. Sua
honra foi ferida e ninguém, ao menos no Brasil, a tem defendido.
Por falar em vícios, preciso
confessar outro: leite de amêndoas.
Sempre gostei dos leites de
grãos e castanhas. Não tenho problema com essa coisa de chamar de leite, não
faço nenhuma comparação com leite de verdade. Nem me incomodo com o nome
emprestado. Digo isso porque acho que muita gente não consegue apreciar estes
leites pela comparação, esperando algo muito parecido com o leite de verdade ou
um sentimento de exclusão, como se tivesse que escolher entre o leite de vaca
ou o de cereais. Cada coisa no seu lugar e tem lugar pra todos na minha barriga.
O leite de amêndoas, no
momento, está ocupando um bom espaço no meu paladar e olfato. Aqui se encontra
o xarope pronto. Dá pra fazer de várias formas diferentes, apenas acrescido de
água. É praticamente um suco, geladinho. No calor é delicioso.
Usa-se muito em doces, com uma
massa folhada ou podre e um recheio de creme feito com leite de amêndoas e por cima as amêndoas in natura.
Outro combinação boníssima é o
caffé ghiaccio feito aqui. Servido assim: embaixo o leite de amêndoas frio, depois o café quente
e por último gelo. Delicioso. Dá um toque delicado à bebida que me agrada, uma
pessoa não muito apreciadora de café.
Penso que não é difícil fazer,
mas já sei que não é como as outras castanhas que bato no liquidificador, tem
que ser prensada.
A pergunta que não quer calar é se esse xarope existe no Brasil,
mais especificamente em BH. Por isso peço um favor a quem puder: rola de dar
uma passadinha (este termo é muito mineiro, é lindo!) no Verdemar ou no mercado
central (naquela banquinha de produtos árabes) e descobrir se vende? Em caso
negativo deixo todos meus pertences na Itália e volto só com latte di mandorla
na bagagem.
Não deu tempo de fotografar a ricota antes da fuga de rosalinda, mas tá aí o leite de amêndoas para ajudar na pesquisa...
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012
A fuga de Rosalinda
Há muito tempo elas vinham pensando
nisso. Uma aventura. Só as duas, mãe e filha. Não que a vida de
Rosalinda não fosse boa. Era bem tratada, tinha regalias pela sua
produção de leite, podia andar pelo pasto ao redor da casa, vivia
bem. Mas tinha um pouco de
fastio. Além disso, desde que sua filha Shiva havia
desmamado não passavam muito tempo juntas. Shiva, na flor da idade,
com todos os hormônios da adolescência aflorando em belos chifres,
era mantida presa com as cabras. Uma menina gigante no meio das
minúsculas amigas, um pouco pitoresco. Tinha saudades.
Rosalinda é dessas mães italianas, super protetoras.
Planejaram por um bom tempo e quando
chegou a oportunidade, todos na fazenda ocupados com alguma
atividade, não tiveram dúvida. Se olharam com aquela cumplicidade
materna e pata ante pata, saíram de fininho, rumo ao campo sem fim.
As primeiras horas foram de pura alegria, um certo frio na barriga de serem descobertas, mas com tanto mato para provar não pensaram muito nisso, e se divertiram. Mugiam, brincavam, pastavam, Shiva coçava seu pequeno chifre em toda árvore que encontrava, especialmente nas figueiras carregadas de fruta, que soltavam um perfume delicioso. E ainda comia os figos. Aquela árvore era perfeita.
Depois de um tempo tiveram sede e
Rosalinda não conseguia saber como arrumar água. Não havia visto no caminho nenhum balde como aquele da fazenda. Shiva estava um pouco
cansada, fazia muito calor e ela tinha muita sede. Rosalinda cedeu e
deixou ela mamar, como nos tempos antigos de criança.
Acabaram dormindo na sombra de uma
oliveira e quando acordaram já era noite. Pensaram em retornar à
casa, já estava bom de aventura. Mas de repente olharam para um lado
e para o outro e perceberam que não sabiam onde estavam. De que lado
tinham vindo? Onde era a estrada? Rosalinda é uma vaca esperta e
tentou ver as marcas de suas patas na estrada, mas era noite, não
podia enxergar muito e além do mais havia muitas marcas de pneu de
carro. Será que alguém as estava procurando? Já sentia saudade de
casa e dos mimos de Flavio e de Roberto. Mas se manteve firme e
calma. Não dava para fazer mais nada àquela hora, o melhor era
dormir e esperar amanhecer. Quem sabe o sol trouxesse boas notícias.
Acordaram com sede, Rosalinda amamentou
Shiva e depois resolveram caminhar, à procura de casa, de água, de
ajuda. Mas não eram muito boas para comunicar. Muito grandes, um
pouco desajeitadas, com a voz muito grave, quando encontravam alguma
pessoa faziam tanta festa, tanta confusão que acabavam espantando o
desconhecido. Tinham esperança de ouvir o carro de Flávio ou a voz
doce de Ruly as chamando. Continuavam a comer tudo que aparecia à
sua frente, assim foram caminhando, caminhando, cruzando a
estrada... Mas nada de novo aconteceu neste dia. Foram dormir um
pouco preocupadas, mas exaustas do segundo dia daquela aventura.
Sonharam com um campo de trigo e um rio, mesmo sem nunca terem visto
nenhum dos dois.
Enquanto isso no jantar da fazenda o
telefone toca. Um vizinho havia visto as vacas desaparecidas, mas não
tinha conseguido prendê-las. Saímos já tarde da noite atrás de
algum sinal. Nada.
Terceiro dia começa cedo na fazenda,
dois carros, cada um para um lado a procura das vacas. Chamam, buscam
sinais no chão, perguntam às pessoas. Rosalinda e Shiva já são
conhecidas a essa altura. Primeiro um conta que a irmã viu as duas
caminhando na manhã anterior, outro conta que elas comeram todo o
figo da sua casa. Mas as informações não são suficientes e depois
de mais de três horas rodando, os dois carros retornam com seus
motoristas cansados e um pouco frustrados.
Enquanto isso já distante dali
Rosalinda acorda com Shiva eufórica, felicíssima. Estava explorando
a região (porque Shiva, ao contrário de Rosalinda, não cansou da
aventura ainda), foi coçar o chifre numa bolota que havia no chão e
a bolota se rompeu. Dentro tinha uma polpa vermelha deliciosa,
fresca, que acabou com a sua sede. Elas não conheciam melancia, e a
melancia do salento é especialmente boa. Estavam no paraíso.
Comendo, explorando o campo, acabaram se
encontrando dentro de uma horta. Uma horta de tomate! Outro paraíso
gastronômico italiano, os tomates são tão doces e tão pouco ácidos, que as duas podiam comer aquela frutinha o dia todo. Mas antes
de acabar com a horta apareceram dois jovens. Vinham abanando as
mãos, gritando. Rosalinda não entendia muito bem o que faziam,
achou que era uma saudação e balançava sua cabeça enorme e mugia.
Os rapazes recuaram. Voltaram com uma corda e sem saber bem porquê
as duas foram amarradas e levadas para junto dos porcos. Estavam
assustadas com aquilo tudo, os porcos não eram simpáticos, achavam
que as duas vacas iriam roubar sua pouca comida. Porque para um porco
a comida sempre é pouca, nunca é suficiente. O clima era tenso, o
lugar era sujo e fedia. Rosalinda não entendia porque era tudo tão
sujo. Havia porcos na fazenda, mas era tudo limpo, quase cheiroso. Shiva era até amiga de uma porquinha que havia nascido na mesma
época que ela.
Depois disso não sei o que se passou
naquele lugar estranho. Roberto foi avisado no outro dia que haviam
encontrado as vacas fujonas e que agora ele devia uma horta de tomate
para os donos. Não pode ver o prejuízo ainda, tem que fazer perícia
e tudo mais, mas já buscou Rosalinda e Shiva. Voltaram estranhas,
cabisbaixas, caladas. Depois de um bom banho, Shiva já está melhor,
mas Rosalinda tem o olhar distante. Talvez esteja impressionada com
algo que viu ou viveu. Talvez prevesse as mudanças que estavam por
vir à sua volta, não sei. Rosalinda é muito sensível.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Roberto, o cuocco
A primeira pessoa que conheci na
fazenda foi o Roberto, o pai. Ele foi me buscar na cidade vizinha,
Lido Marini, não chega nem a ser uma cidade direito, mas nessa época
é lotada por causa da praia. À primeira impressão se imagina um
homem muito sério, calado, rústico. Talvez porque lembrou o meu pai
simpatizei de cara, gratuitamente. Depois ao vê-lo na cozinha onde
comanda os famosos jantares da casa me encantei de vez.
Melhor que descrevê-lo é contar
algumas situações que vivi com este italiano grandão, sempre com a
barba por fazer, andando calma e pesadamente pela cozinha da fazenda.
- Ele mede a porção de arroz na mão, cada punhado que cabe na sua mão grande, corresponde a uma pessoa. Fácil assim, sem copos intermediários.
- Toda vez que fatio o pão ou o queijo ele me olha dizendo: não corta tão fino, assim não se sente o sabor de nada.
- O Roberto é um verdadeiro defensor dos produtos orgânicos e naturais. Não cansa de repetir que o vinho (produção biológica de um amigo) não faz girar a cabeça ou acordar com um gosto estranho na boca, porque não tem solfito, a substância usada normalmente para ajudar a conservar.
- Ele pode gastar toda uma tarde preparando aquele desfile de pratos para o jantar ou fazê-lo em 20 minutos, igualmente delicioso. Igualmente tranquilo.
- Outro dia fez uma brusqueta com queiijo de ovelha e marmelada de tomate e me contou que tinha feito aquela marmelada um tempo atrás, imaginando justamente a combinação com o sabor forte do queijo de ovelha. Lindo, não?
- Eu gosto de ver tudo limpo na cozinha e não paro enquanto não terminamos. Final de semana ele vem, me tira da cozinha e diz que a vida não é só trabalhar, que eu preciso aproveitar mais...e lá vou eu pra praia, sob ordens do cuoco (o cozinheiro).
- O jantar dura umas três horas. Entre cada ida e vinda à cozinha ele pode conversar com qualquer um, sobre qualquer assunto. Da história da Itália ao crudivorismo. Das melhores praias para tomar banho a como escolher uma melancia. Tudo com muito bom humor, aquele humor irônico, discreto.
- Uma pessoa ao meu lado diz que o leite cru é muito pesado, difícil de digerir. Vejo Roberto crescendo do outro lado da mesa, ele olha a moça e começa uma verdadeira aula sobre as vantagens do leite cru e fresco, dos malefícios do leite de caixinha, que segundo ele não é leite... um belo texto! Nessa hora pude ver meu pai falando...
- Ele é a personificação do slow food salentino, na verdade de toda Itália. Conhece toda a tradição alimentar do país, como se prepara, onde é cultivado. Sua filha vai no mesmo caminho e juntos, pai e filha fazem da cozinha um verdadeiro laboratório de degustação e conhecimento.O Roberto é um homenzarrão, mas tem uma delicadeza no paladar impressionante. No segundo dia já sabia que eu gostava de conhecer os sabores locais. E me faz provar cada coisa que acha digno de nota. Neste exato momento escrevo deitada na rede depois de ter provado a ricota ainda morna que ele acabou de fazer, deliciosa. Ele me pergunta:- Parece um doce, não?
Não deixe de assistir este vídeo lindíssimo do Roberto preparando o pão no Sarruni.
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quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Iemanjà
Este post é para me redimir com o mar da Itália.
A verdade é que as praias são lindas,
mas muito cheias, difícil avaliar assim com tanta gente. Os espaços
são restritos, o mar é cheio. Não gosto muito.
Mas agora conheci, outra parte do mar,
onde se chega pelas pedras. Não tem areia, só pedra e o mar. Menos gente, sem barraca de praia, sem som. É
perfeito, porque o mar fica mais azul e transparente sem a areia. Como muitas vezes se chega por cima tem a visão panorâmica
da paisagem. Olha esse lugar: Ciolo!
Dá pra ver nessa foto um monte de
rapazes espalhados pelas pedras? Este momento foi emocionante. Havia
garotos de 15 a 25 anos em todos os lados nas pedras. É um canion
que dá no mar. Bem alto, por volta de 20, 30 metros, para se ter uma ideia eles pulam de
tênis, para não machucar. Ao grito de um deles todos começaram a
pular, um de cada vez, cada hora de um lugar diferente. Nós de cima
da ponte com um frio na barriga acompanhávamos aquele espetáculo de
adrenalina. Posso sentir o frio na barriga só de lembrar!
Mais foto para saudar Iemanjá e estes bravos rapazes!
sábado, 28 de julho de 2012
Enfim, wwoofer!
Estou começando minha experiência como wwoofer. Atravessei a Itália para chegar no Sarruni, uma fazenda orgânica em Salento, mais especificamente Capo di Leuca, como é conhecida toda a região de Puglia mais ao sul no salto da bota. É quase o prego do salto de tão sul que é. Numa zona belíssima, puro mediterrâneo, eles produzem azeite de oliva orgânico e tudo mais que uma fazenda pode dar, principalmente para o consumo da família e para receber os hóspedes que vêm no verão. É um agriturismo, uma hospedaria rural.
Só com esta viagem me dei conta da posição central da Itália unindo por mar o ocidente e o oriente. Toda gente já passou nessa região, árabes, gregos, espanhóis. As palavras do dialeto local têm influência de várias línguas, inclusive várias palavras iguais ao português, conclusão falo com a Nonna em dialeto! Andei por cidades pequenas que têm placas em grego, outras com construções com ares africanos, comi pratos de influência árabe, tem de tudo. Esta mistureba deu uma característica única ao povo desse lugar, alegre, exagerado, brincalhão. É a Itália que fala alto, quase aos berros, que dança, ri, briga e gesticula para tudo. Não que eu não tenha visto isso em outras partes, mas aqui parece que o sol forte deu um tempero especial e acentuado.
Tem oliveira para todo lado que você olha, a perder de vista. Mas poucas orgânicas, como estas da fazenda. É um mundo de conhecimento próprio, das variedades às formas de extração. Já aprendi que o melhor processo de extração do óleo é o tradicional, claro, como faziam os antigos produtores. Os processos mais modernos, industrializados, usam olivas colhidas do pé e do chão, alterando o sabor do óleo, mesmo que sempre prensado a frio. O ideal é a extração no frantóio tradicional (parecido com o nosso moinho de pedra...), que produz o azeite mais puro. E que centrifugar gera um óleo mais claro, mas homogeiniza pequenas partículas que alteram o sabor (oxida um pouco o óleo). Melhor é o óleo decantado, duas ou três vezes, calmamente, sem pressa, um pouco turvo, mas puro. Infelizmente não estarei aqui na época da colheita e feitura do azeite, curto a fruta pequenina no pé, ainda verde. Minha “casa” é um antigo trailler na sombra de uma oliveira.
A família é a típica italiana, a nonna que prepara a pasta diariamente, pai, mãe, filhos e nora. Não sei se é sorte de principiante mas sou muito bem acolhida e integrada à família. Eles dizem que são os brasileiros que são simpáticos...
Sou uma wwoofer curiosa, pergunto tudo com meu parco italiano. E como tem história essa região. A culinária é incrível, tenho a sensação que poderia passar o resto da minha vida aqui e nem assim conheceria todas as comidas tradicionais. A fazenda oferece aos hóspedes a típica cena salentina, um jantar com pratos locais do antepasto à sobremesa, passando pelo primeiro prato, segundo prato, contorno. É um desfile de comida. Toda noite, tudo maravilhoso.
Tão bom quanto comer é ajudar na cozinha, uma das funções wwoof na fazenda. Adoro. Gosto de ver como eles cozinham, gosto de cozinhar, fico feliz de ver o prazer das pessoas à mesa, saboreando aquele pedaço do paraíso que ajudei a preparar.
O ritmo do trabalho acompanha o sol. Começamos cedo, as 6 da manhã, com os animais: dando o trato, recolhendo os ovos, tirando o leite. Depois uma geral na cozinha e em outros serviços urgentes. Por volta de 10, 11 horas pausa para os wwoofers, que só voltam no fim da tarde, lá pelas 5, geralmente na cozinha, nos preparativos do jantar, preparando a mesa, ajudando a servir.
Traduzindo, tenho 6 a 7 horas livres no meio do dia... Tá certo que é quente pra caramba, mas o mar tá ali, azulzinho, me esperando, dá pra ver do terraço da casa...
Só com esta viagem me dei conta da posição central da Itália unindo por mar o ocidente e o oriente. Toda gente já passou nessa região, árabes, gregos, espanhóis. As palavras do dialeto local têm influência de várias línguas, inclusive várias palavras iguais ao português, conclusão falo com a Nonna em dialeto! Andei por cidades pequenas que têm placas em grego, outras com construções com ares africanos, comi pratos de influência árabe, tem de tudo. Esta mistureba deu uma característica única ao povo desse lugar, alegre, exagerado, brincalhão. É a Itália que fala alto, quase aos berros, que dança, ri, briga e gesticula para tudo. Não que eu não tenha visto isso em outras partes, mas aqui parece que o sol forte deu um tempero especial e acentuado.
Tem oliveira para todo lado que você olha, a perder de vista. Mas poucas orgânicas, como estas da fazenda. É um mundo de conhecimento próprio, das variedades às formas de extração. Já aprendi que o melhor processo de extração do óleo é o tradicional, claro, como faziam os antigos produtores. Os processos mais modernos, industrializados, usam olivas colhidas do pé e do chão, alterando o sabor do óleo, mesmo que sempre prensado a frio. O ideal é a extração no frantóio tradicional (parecido com o nosso moinho de pedra...), que produz o azeite mais puro. E que centrifugar gera um óleo mais claro, mas homogeiniza pequenas partículas que alteram o sabor (oxida um pouco o óleo). Melhor é o óleo decantado, duas ou três vezes, calmamente, sem pressa, um pouco turvo, mas puro. Infelizmente não estarei aqui na época da colheita e feitura do azeite, curto a fruta pequenina no pé, ainda verde. Minha “casa” é um antigo trailler na sombra de uma oliveira.
A família é a típica italiana, a nonna que prepara a pasta diariamente, pai, mãe, filhos e nora. Não sei se é sorte de principiante mas sou muito bem acolhida e integrada à família. Eles dizem que são os brasileiros que são simpáticos...
Sou uma wwoofer curiosa, pergunto tudo com meu parco italiano. E como tem história essa região. A culinária é incrível, tenho a sensação que poderia passar o resto da minha vida aqui e nem assim conheceria todas as comidas tradicionais. A fazenda oferece aos hóspedes a típica cena salentina, um jantar com pratos locais do antepasto à sobremesa, passando pelo primeiro prato, segundo prato, contorno. É um desfile de comida. Toda noite, tudo maravilhoso.
Tão bom quanto comer é ajudar na cozinha, uma das funções wwoof na fazenda. Adoro. Gosto de ver como eles cozinham, gosto de cozinhar, fico feliz de ver o prazer das pessoas à mesa, saboreando aquele pedaço do paraíso que ajudei a preparar.
O ritmo do trabalho acompanha o sol. Começamos cedo, as 6 da manhã, com os animais: dando o trato, recolhendo os ovos, tirando o leite. Depois uma geral na cozinha e em outros serviços urgentes. Por volta de 10, 11 horas pausa para os wwoofers, que só voltam no fim da tarde, lá pelas 5, geralmente na cozinha, nos preparativos do jantar, preparando a mesa, ajudando a servir.
Traduzindo, tenho 6 a 7 horas livres no meio do dia... Tá certo que é quente pra caramba, mas o mar tá ali, azulzinho, me esperando, dá pra ver do terraço da casa...
terça-feira, 24 de julho de 2012
Frise di Grano
Eu não sabia, não tinha como adivinhar...
Como eu poderia imaginar que aquele pacote que parecia estar na casa desde o verão passado não era um pão velho, impressionantemente sem mofar, e sim uma delícia gastronômica tradicional?
Não tive dúvida, Tino, o cão, estava esfomeado. Na melhor das intenções mandei ver: pão velho pra matar a fome do cachorro!
Mattia, um amigo queridíssimo, depois me explicou com a maior calma do mundo, que não era um pão velho, mas um prato típico salentino. É assado em forno a lenha com lenha da poda das oliveiras... Fica guardado por meses, até anos se bobear. Na hora de comer você joga um pouco de água, aquece e come com um fio de azeite e molho de tomate fresco por cima...Putz.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Galinha Caipira
No jornal local todo dia tem uma ou
duas páginas dedicadas à alimentação. Aqui é um prazer falar,
discutir, pensar a alimentação. Olha essa notícia slow:
recuperação de uma variedade de galinha caipira que foi substituída
por outras mais produtivas e rápidas na engorda alguns anos atrás...
O mais legal é que pouco antes de
viajar tivemos uma conversa parecida na fazenda (depois de uma greve
fenomenal das galinhas poedeiras): buscar variedades mais rústicas,
que botam menos, mas são mais adaptadas, mais caipiras, mais
slow.
sábado, 21 de julho de 2012
Puglia!
Cheguei ao sul da Itália. Literalmente cruzei o país e agora estou no salto da bota, Puglia. Uma nova paisagem se descortinou à minha volta. Saí das montanhas da Toscana para uma grande planície no Salento, região da Puglia onde estou. Os campos de oliva são um espetáculo a parte, há árvores velhíssimas, com troncos todo retorcidos, cada uma faz um desenho próprio, como se dançassem, como se até o momento anterior estivessem se mexendo e só pararam porque agora são observadas. Se bobear elas falam. Por uma estrada estreita, cercada dos dois lados por oliveiras posso ver no horizonte muitos cataventos ampliando a visão como se andássemos em direção ao infinito. No som do carro a tarantella, a música oficial de Puglia. É um momento mágico.
Não sei explicar muito bem, mas é bem diferente do norte da Itália. Tem outro ar, outra história, outro sabor. As cidades são diferentes, muitas e pequeninhas, perdidas no meio dos olivais, de repente surgem como um mistério. Os tons mudaram, tudo mais claro, agora vão do branco ao amarelado, cor da pedra mais usada para construção por aqui.
Os alimentos são mais ou menos os mesmos, mas têm uma certa rusticidade que me agrada. Melancia menorzinha, tomates mais desiguais, muito doces e perfumados.Vinho e azeite de oliva! Vinho e azeite de oliva, vinho e azeite, com abundância.
A praia é belíssima, mas não impressiona uma brasileira...gente demais.
As festas populares sim, impressionam. Se chamam Sagra. Geralmente são relacionadas à algum tema gastronômico ;) Sagra da Cozinha Mediterrânea, da Pizza, do Polvo, do Grano Duro...tem para todos os gostos. São bem populares, baratas, poderiam ser mais rústicas, mas eu gosto, sempre tem uma barraquinha de produtores com algum alimento típico, eu me encanto fácil...
Por último a música. Perfeita. Ainda não posso diferenciar a tarantella da pizzica, mas as duas são ótimas. É a música oficial das sagres. É alegre, o corpo rapidamente entra no ritmo, é gostosa de ouvir. Me lembra um pouco a música do nordeste do Brasil. As pessoas aqui dançam com gosto, prazer, bonito de ver. E de dançar, claro.
Não falo mais, deixo aqui imagens para ser construída uma Puglia no coração de quem lê, como está construída no meu.
Se quiser entrar mais no clima, música salentina: pizzica.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
A bota – traçando o roteiro
Uma amiga me disse que sou a pessoa
mais a deriva e com mais foco que ela conhece. Então é essa a rota
da viagem: objetivos traçados, mas muitas lacunas para o
imprevisível, o novo que sempre aparece. Gosto de não fechar muito
os caminhos para não perder o acaso e suas possibilidades.
Mas o esqueleto tá montado e começa
em Torino, Piemonte, por onde entro na Itália. Piemonte tem muitas
coisas que me interessam, a primeira e maior delas é a sede do
movimento slow food. Desde que conheci o assunto me apaixonei, foi
como descobrir minha tribo, pessoas falando e fazendo o quê eu
acreditava e gostaria de ver no mundo: alimentação e plantação
caminhando juntos. É muito estranho que eles tenham se separado, mas
esta é a verdade depois da revolução verde e do crescimento da
indústria alimentar. A comida ficou orfâ de pai e mãe, como uma
criança da roça criada na cidade grande, sem conhecer suas origens.
Na verdade as pessoas ficaram orfãs de uma comida com história,
ciclo, sabor. Resgatar isso é lindo e saboroso e o piemonte é onde
tudo começa. Tem a UNISG, (www.unisg.it)
Universidade de Gastronomia do movimento, um sonho antigo, um curso
de mestrado que namoro há alguns anos...
Próximo passo Toscana. Roça. Mesmo
com todo calor do verão, espero poder por a mão na terra, visitar e
estar em algumas propriedades rurais, principalmente de horta
orgânica. Dizem que é um ótimo período para festas típicas na
região, e gostaria de alternar a atividade rural com passeios...
Não sei o próximo passo, mas ainda
tenho dois objetivos:
Bologna. Um amigo de uma amiga
participa do Slow Food local e achei que seria legal ver as
atividades da região.
Por último Puglia. Sei pouquíssmo
sobre o salto da bota, mas estou decidida a chegar até lá. Minha
última paixão literaria foi Ossos, Sangue e Manteiga, de Gabrielle
Hamilton, uma chef de cozinha americana muito autêntica, dona de um
restaurante em NY que parece ser um sucesso – Prune, e que se casou com
um italiano da região. Seu relato me encantou com a simplicidade do
povo, sua culinária rica e preservada, a rusticidade das feiras e a
alegria das pessoas. Foi amor a primeira leitura.
No mais à deriva, deixando o vento me
guiar. Parece bom, não é?
Local:
Belo Horizonte - MG, Brasil
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