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quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Meu aniversário e eu que bato palmas
Pois é, teve o aniversário.
33 anos, a idade de Cristo. Foi uma experiência nova, aniversário um pouco anônimo. Na verdade já tinha programado o almoço, que tinha gosto de despedida e de uma nova família. Teve direito a cardápio especial, e bolo no final, com velas e tudo. Casa de produtor de vinho é tudo de bom, bebemos um vinho branco austríaco que Pietro me deu uma aula sobre o sabor frutado e especial. Adorei. A noite um jantar com Alberto numa biosteria, imagina que numa cidade pequenininha como Cole Val'desa tem um restaurante orgânico, simples, delicioso, biológico. Fácil assim.
Essa coisa de sentir um carinho grande por pessoas que você conhece a pouco tempo é novo pra mim. Me lembro que antes de viajar, Meroca, uma amiga queridíssima me disse vai mesmo, vai conhecer o mundo, fazer amigos. Pra mim soou estranho. Pensava que amigos era coisa de convivência, com tempo, contato. Não se fazia amigos de verdade assim, em viagem. E este deve ter sido meu maior aprendizado. Tantas pessoas que num encontro de um dia já se tornavam queridas. Imagine então a família Majnoni, que desde o Brasil a Aurora já era uma super amiga e aqui nos tornamos verdadeiras irmãs. Nesta altura eu já tinha adotado o pai dela, Pietro, o irmão, tia, prima, gato, todos já moravam em meu coração! Aqui incluo duas mulheres lindas, que são exemplos para mim: Elena a irmã de Pietro e Christiane, a namorada. Não tenho palavras para agradecer a esta família. Foram muitos momentos especiais, divertidos e de aprendizado. O almoço de aniversário só podia ser ali, "minha casa" como dizia Pietro toda vez que eu retornava e exausta das viagens e andanças dormia horas e horas, como quem volta pra casa...
Aproveito o aniversário para agradecer a estes velhos novos amigos que fizeram desta viagem algo muito importante para mim, a descoberta deste amor que pode permear pessoas que mal se conhecem, mas que se conectam numa energia sutil, como se estes encontros já fossem programados de outros planos e aqui só temos que trocar um olhar e sorrir, foi o prêmio da viagem, sem sombra de dúvidas!
Aos amigos de Pádua, Davide, Simone e Sara, Paride e Vittoria. Vittoria foi a primeira pessoa que me comuniquei melhor (melhor soa um pouco engraçado...) nos meus primeiros dias de Itália. Numa noite que jantamos juntas rimos muito e ela me deu um super lição que não esqueci mais. Ela tinha feito uma experiência de um ano num país da Asia, acho que Tailândia e tinha todos os problemas com a língua e me disse para não deixar de me expressar por essas dificuldades, compartilhar, mesmo que dê trabalho formular uma frase inteira ;)
Aos queridos do Piemonte, familia e amigos do Regaldo. Uma honra estar no casamento da Paola e do Flavio, obrigada pela acolhida nos primeiros dias de Itália. Quero voltar no castelo para aprender as receitas que Pati disse que me ensinava depois que eu aprendesse italiano...
Família Pasolini e aqui inclui a grande família Pasolini: wwoofers, Dado, Kiko, Walter, Annalucia, Lorenzo e todos que encontrei e conheci ali na Officinalia, lugar de gente boa, alto astral e trabalhadeira! O passeio que fizemos num rio com águas sulfurosas e depois o pic nic em San Galgano é inesquecível, dos dias mais legais que tive na Itália! Adoro todos ali, do fundo do meu coração.
Outra família querida, que me acolheu prontamente, foi a família de Angelo Rossini. Adoro todos, e aqui também incluso os amigos Massimo e Maria (que espero esteja bem). Uma paisagem especial da mesa de jantar da casa, com aquele vale à frente e as montanhas de floresta atrás.
Em Puglia encontrei um super pai, Roberto, que sinto um carinho especial inexplicável. Toda a família é demais, adoro a nonna, Mariassunta, Stefânia (outra irmã desta viagem). O Salento se tornou meu cantinho querido na Itália, tudo melhor para mim vem dali: azeite, pasta, figos, melancia, o mar... sou passional nesta hora, totalmente. Ah, Mattia e Tino, a dupla! Queridos. Mattia foi dessas amizades relâmpagos, nos vimos uma vez em Pádua e vinte dias depois estávamos viajando juntos para Puglia no carro dele, fiquei na casa dele quase uma semana (veja bem, a gente se conhecia de uma noite numa mesa de bar...) e Tino virou o meu cão também, me acordava todo dia para a passeada matinal. O que me ocasionou algumas arranhadas básicas pelos braços e pernas, mas nada que já não esteja cicatrizado, ou que diminua meu carinho por aquele cão grandão e desajeitado ;)
Em Palermo outro fenômeno da verdadeira amizade feita em segundos. Emanuele e eu nos conhecemos no ônibus, indo para a praia. Eu estava sozinha, ele também. Começamos a conversar e daí a fazer várias coisas juntos foi um pulo. Férias a dois era muito mais divertido. Mas no primeiro dia, depois deu contar que minha mãe ficava super preocupada porque eu não tinha um cartão de crédito ele me emprestou um cartão de crédito recarregável, que você vai nos correios e deposita o dinheiro. É bom porque dá pra comprar passagem, fazer reservas em hotel e tudo mais pela internet. Tinha até saldo no cartão!!! Me disse que quando eu fosse embora mandasse pelo correio. Dá pra acreditar? Esse rapaz tem um coração de ouro! E tem um cantinho no meu coração também!
Daniela e Alberto, Michele e Laura, Caterina e Massimo, queria contar como cada uma dessas duplas foi sensacional e carinhosa comigo assim do nada, amizade gratuita com uma brasileira que falava mal o italiano e que haviam conhecido num final de semana no Salento e me receberam depois em Roma. Enquanto conhecia Roma com as super histórias de Caterina só conseguia pensar como era afortunada, nenhum guia chega aos pés dessa arquiteta divertida e carinhosa. São todos maravilhosos e super convidados para virem ao Brasil!
Então agora em bloco, pra não ficar grande demais (o que não quer dizer que sou grata-compacta, sou grata com um coração dilatado por todos estes encontros). Denis, meu primeiro e bem sucedido amigo couchsurfing, às meninas Lisa, Alice, Aurora, Aurora, pelo belo final de semana de chuva e pelo carinho que todas demonstram pelo Brasil ;) , família Caramadre, à querida família de Umberto, Gaia, Leone e Augusto. Inesquecível (eu estou sempre repetindo essa história) a carinha do Leone quando eu contei que nunca tinha visto neve e o grito - Mama, mama, lei ha mai visto neve! Amigos da vendemmia, que me proporcionaram uns dias bem divertidos no meio de tanto trabalho. Podestá, Claudia, Jeancarlo e Jacopo, uma turma que queria perto de mim todo o tempo. Adoro. Outra turma que é "a minha turma" são os amigos do Le Fornaci, Michele das cabras (a gente sacaneia ele que se identifica no telefone como o cara das cabras), Lea, Fran, Ba, Massimo, Marco, todo mundo que encontrei ali é show de bola, eu me sentia em casa, entre velhos amigos! Amigos do Terra Madre, especialmente minhas amigas de infância conhecidas ali a paulista Flora e a sergipana Cibele. Familia Sica, rápida e fácil interação, assim, perfeito. Michele e Elisa, este super casal que me adotou nas minhas passadas por Turim neste final da viagem. A todos de Maggiano, Laura, Luca, Andrea e Chiara, família linda que adorei conhecer e estar juntos, Elisabeta e Nicolò, Mila, Francesco, Sérgio...Alberto, este encontro não tenho palavras, deixo pra vida dizer.
Obrigada a todos, sei que muitos nem vão ver (ou entender) este post, mas foram todos muito importantes nestes últimos meses da minha vida. E principalmente me fizeram descobrir o lugar no meu coração onde mora este amor, construído assim, rápido, mas que depois é grande e num sai mais dali...
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
A vassoura final
este é o lixo orgânico do Terra Madre
e dentro com restos de comida, pratos, copos, guardanapos. tudo feito com fibra de milho. biodegradável!
Esta é uma das coisas mais legais que teve pra mim no Terra Madre. O material era todo biodegradável. Não só isso, todo o evento foi pensado para produzir um mínimo de impacto ambiental. As mesas e cadeiras feitas de papelão eram sensacionais!
Mas as críticas também são necessárias...o almoço dos voluntários e delegados estava longe de ser slow. Todos os dias a mesma comida, com uma carinha sem vida e sem calor... Show mesmo foi a Regina Tchelly que juntou um pouquinho de cada ingrediente brasileiro, colocou seu uniforme de chef e foi lá nos bastidores cozinhar. Neste dia passamos bem com arroz vermelho feito com leite e queijo brasileiro e farofa de licurí e baru!
Difícil também é aceitar o clima de shopping center no sábado a tarde que acaba virando o evento. Numa certa hora é duro se locomover... E o cansaço só é vencido pela vontade de ver o mundo!
Mas o mais legal mesmo é com certeza o esforço do movimento para trazer os produtores e produtos de todo mundo. Os produtos tiveram que ser enviados antes, para serem analisados pelo controle da Comunidade Européia, e depois o Slow Food importou todos eles para estarem disponíveis no Terra Madre. Claro que vários tiveram problemas, e muitos mels ficaram presos pelas alfândegas européias... Cobrir a viagem dos produtores justifica o preço alto da entrada do evento. Não tem preço a alegria da delegação brasileira, com índios do Amazonas, agricultores da Bahia e Goiás, produtores de queijo de Minas e Ceará, que ficaram num hotel nos pés das montanhas e tiveram o privilégio de verem nevar! Um breve "causo" da Dona Maria Perpétua, catadora de umbú do sertão da Bahia. A família era contra a vinda dela, diziam que ela não sabia ler, que ia ficar perdida, que não ia se comunicar. Pois bem, Dona Perpétua deu seu recado, mostrava o flyer e dizia - Umbú, depois mostrava o vidro com os umbus em conserva, por último esticava a colherzinha com um pouco do doce para a pessoa provar. Sucesso total. Fez vários amigos.
Dona Maria Perpétua fez amizade com essa moça da Líbia. Em que língua? A do mundo!
aqui as mesas e cadeiras de papelão
e as premissas do evento a baixo impacto ambiental
sábado, 27 de outubro de 2012
Semente na Terra
Clara, com os olhos vendados, pega um pistache do copinho oferecido pelo animador. Primeiro brinca com a castanha entre os dedos. Cheira. Diz aos colegas que é pequeno. Começa a experimentar, um pouco receosa. Faz uma careta. A animadora pergunta que coisa é. Clara não sabe dizer. Vem algumas dicas: tem um sorvete famoso feito com isto. A cor é um pouco verde, um pouco avermelhada em alguns lugares. Mesmo sem gostar muito ela prova outro, ri, diz que é um pinhole. Não adiantou, Clara não descobriu, nem com os gritinhos da sua equipe que tentavam ajudar. A equipe do "Galo Negro do vale de Vara" não andou. É a vez da equipe "Galinha do ovo azul do Chile". Com todas as experiências dos sentidos possíveis o jogo desenrola num tabuleiro gigante, em meio aos stands do Terra Madre.
Na mesa ao lado, um jogo para dois: o cara a cara cultural. Cada jogador escolhe um personagem que o outro precisa adivinhar. As perguntas vão desde se o cara é dos tempos atuais ou antigo e se ele come com a mão ou sentado no chão. Continente, alimentos tradicionais, utensílios utilizados. Cada personagem vem com todas essas dicas ali. Enquanto você tenta descobrir o personagem do outro aprende mais do mundo! Fotografei todas as cartas, agora é só se inspirar (vou postar nas fotos)! E não é coisa de criança não, eu por exemplo não sabia que a Mauritânia era na África...Tem muito pra aprender ;)
Na mesa ao lado, um jogo para dois: o cara a cara cultural. Cada jogador escolhe um personagem que o outro precisa adivinhar. As perguntas vão desde se o cara é dos tempos atuais ou antigo e se ele come com a mão ou sentado no chão. Continente, alimentos tradicionais, utensílios utilizados. Cada personagem vem com todas essas dicas ali. Enquanto você tenta descobrir o personagem do outro aprende mais do mundo! Fotografei todas as cartas, agora é só se inspirar (vou postar nas fotos)! E não é coisa de criança não, eu por exemplo não sabia que a Mauritânia era na África...Tem muito pra aprender ;)
As experiências de educação do gosto não têm fim e durante todo o dia crianças e adolescentes são recebidos para brincadeiras, jogos, teatro e claro, cozinhar! Abaixo eles preparam um sal com ervas. Primeiro passo é descobrir as ervas. Ver, pegar, cheirar, experimentar. Vale tudo para aproximar a meninada daquilo que comem!
que erva é essa, Mattia?
obs: Clara é na verdade Chiara (italiano)
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
No centro da roda o alimento
Pokot é uma tribo africana no Kênia. É uma das 54 tribos oficiais do país. São por natureza pastores. Por isso mesmo não necessitam de casas duráveis e fixas. Constroem com materiais disponíveis da natureza e estão em constante contato com os animais. Vacas, cabras, galinhas, tudo ali em volta de casa. Têm na base da alimentação o leite, mais especificamente o iogurte. Mas não um simples iogurte como conhecemos, mas um produto especial, que beira na sua produção o ritualístico. Por isso mesmo está sendo resgatado como cultura dessa população. Começa com a produção de uma cinza de uma madeira específica. Uma árvore nativa. Um pouco desta cinza vai dentro de uma cabaça comprida e é ali mesmo que se vai tirar o leite. Ou no máximo numa vasilha de barro. O melhor é direto da teta da vaca pra cabaça. Depois é esperar 2 ou 3 dias até o iogurte "virar". A consistência e o sabor são únicos. A cor também. Uma experiência que precisa ser vivida para ser entendida.
Gianni é um jovem italiano apaixonado com plantas, horta, todo o mundo da botânica. Conhece tanto do assunto que alguns anos atrás começou um blog, com dicas e espaço para troca de experiências. Daí veio a idéia de criar um site interativo para os iniciantes (e também os experientes) no mundo do cultivo. O Grow the Planet é o facebook do mundo orgânico! É super simples, você se cadastra e depois com seu login e senha começa a interagir. A interface é simples, accessível, bonita. Começa escolhendo onde será sua horta, na terra ou no vaso, num terraço ou num terreno e por aí vai. Depois você escolhe as variedades, vem separado por estação, e se num tá na hora daquela abobrinha que você tá sonhando em ter em casa o site te avisa. Mas você tem sempre o direito de ser cabeça dura e tentar, quem sabe não funciona...Depois que a semente já na terra começa o diário de cuidados, é só seguir as dicas e na dúvida escreva seus problemas, outros internautas podem te ajudar! É genial, tá tudo ali, desde onde encontrar as sementes até as receitas que você pode fazer. E a construção é conjunta e participativa. Gianni disse que a novidade será a versão em português.
Regina é daquelas cariocas "arretadas", nascida e criada na favela do Leme, trabalha nas redondezas como empregada doméstica. Tinha vontade de fazer alguma coisa pela sua comunidade. Juntou sua mão boa de cozinheira com a necessidade de se aproveitar melhor os alimentos e criou o projeto Favela Orgânica. Lá eles fazem o ciclo completo da comida: da horta ao composto, passando pelas receitas que utilizam os alimentos integralmente. Cascas de frutas e verduras, talos e partes que geralmente são descartadas na cozinha viram receitas pra lá de especiais nas mãos dessa moça. A alegria de Regina contamina, impossível ficar sério ou mal humorado perto de uma estrela que brilha assim, sem pretensões, só pelo prazer da vida. Fez mais amigos que qualquer outro. Em volta ao stand de sorvete italiano aglomerado de gente ela chega de fininho, chama o dono no canto começa a conversar e depois diz: minha amiga queria provar o sorvete! Menos de dois minutos depois estávamos com sorvete na mão, nada de bola tamanho degustação, potinho cheio, de quem tem moral. Ficou conhecida em toda a Terra Madre e reza a lenda que Carlo Petrini queria trazer ela para a Itália.
Ruslan é um dos produtores do queijo armênio tradicional conhecido como Mota. O menor país da ex União Soviética tem grande parte do seu território acima dos 1.000 metros de altitude, pastoreando criadores e cabras podem chegar a 3000 m. O queijo é feito de forma tradicional, quase primitiva. O leite não é nem aquecido, acabou de tirar, ainda morno, é colocado para coalhar. Todo o processo da produção do queijo dura em torno de 40 dias e depois disso ele é posto dentro de um recipiente de barro para ser conservado. Esta embalagem é das mais antigas existentes, usar a ânfora para guardar alimentos remonta a muito antes dos romanos, é a tradição atravessando séculos. Ela deve primeiro ser queimada e dentro ser untada com manteiga azeda. Pronto, depois do queijo ali dentro o negócio é fechar e pra isso cera de abelha. A produção é pequena, quase só para o consumo das famílias e assim será guardado por até 6 meses, no inverno, quando as cabras estão prenhas e não têm mais leite. Ganhou o prêmio Slow Pack para "Técnica de Embalagem Tradicional", por associar uma ideia antiga de conservação com uma embalagem prática e funcional. Enquanto outros vencedores eram representados por gerentes comerciais engravatados e com discursos prontos, Ruslan foi lá, agradeceu em armênio e com seu jeitão de produtor saiu de fininho...
No centro o alimento como protagonista e agregador de pessoas e culturas.
fotos do arquivo da Fundação Slow Food
obs: Regina Tchelly tá largando o emprego como empregada doméstica. Quer dedicar seu tempo ao projeto da Favela Orgânica. Se você quer ajudá-la ou quer convidá-la para um curso ou contratar um buffet ecológico, é só escrever pra: favelaorganica@gmail.com
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Terra Tupiniquim Madre
Sabe quando você vê e experimenta coisas que gostaria que um monte de gente conhecesse também? Pois é, foi assim meu primeiro dia de Terra Madre. Este evento é imperdível pra todo mundo que fala ou se interessa por agricultura, alimentação, ecologia, movimentos sociais e deve ter muito mais áreas de interesses que seria simplista da minha parte fechar nestas descritas.
Já vale a pena só para conhecer os produtos brasileiros. Tá pensando que é brincadeira? Não sei você, mas eu nunca tinha visto o arroz vermelho da Paraíba, a primeira variedade introduzida no Brasil, a três séculos atrás e que até hoje é cultivado da mesma maneira. Nada de melhoramentos perigosos da Embrapa...
Ou o verdadeiro guaraná do Amazonas. Não é aquele em pó ou em xarope. Um bastão preto, defumado, que os índios ralam e misturam com a água para fazer a bebida. Nunca tinha visto nada parecido com aquilo.
Os queijos feitos com leite cru também estavam muito bem representados: Minas, Santa Catarina, Ceará, Sergipe. Um presente para os ouvidos encontrar um mineiro da Serra da Canastra! Hoje era a conferência sobre os queijos tropicais, mas a grande troca de conhecimentos aconteceu mesmo foi na volta que fizemos por "todo o mundo" com estes produtores.
Já vale a pena só para conhecer os produtos brasileiros. Tá pensando que é brincadeira? Não sei você, mas eu nunca tinha visto o arroz vermelho da Paraíba, a primeira variedade introduzida no Brasil, a três séculos atrás e que até hoje é cultivado da mesma maneira. Nada de melhoramentos perigosos da Embrapa...
Ou o verdadeiro guaraná do Amazonas. Não é aquele em pó ou em xarope. Um bastão preto, defumado, que os índios ralam e misturam com a água para fazer a bebida. Nunca tinha visto nada parecido com aquilo.
Os queijos feitos com leite cru também estavam muito bem representados: Minas, Santa Catarina, Ceará, Sergipe. Um presente para os ouvidos encontrar um mineiro da Serra da Canastra! Hoje era a conferência sobre os queijos tropicais, mas a grande troca de conhecimentos aconteceu mesmo foi na volta que fizemos por "todo o mundo" com estes produtores.
Olha o Brasil trocando figurinha com o queijo francês!
Com o queijo da República Checa...
O queijo suíço de 5 anos foi o ponto forte da nossa pesquisa. Descobrimos várias similaridades. Gostamos tanto que os produtores nos deram até o boné da fazenda.
Nas andanças descobrimos que o mineiro tá conhecido... Luciano, produtor da Serra da Canastra
Este primeiro dia tinha sabor de Brasil e depois do trabalho uma visita ao Teatro del Gusto: Que maravilha, quanta fruta hoje! Três super chefs brasileiras - Neide Rigo, Mara Salles e Ana Soares, apresentando o pequi, jatobá, umbu e tantas outras frutas do Brasil. Até caipirinha rolou. Como disse meu amigo Marcelo Podestá foi de chorar, é a primeira vez que vejo uma chef de cozinha falar de receitas com jatobá. Primeiro provamos com mel de jataí, as famosas abelhinhas brasileiras e depois a surpresa abaixo: merengue com jatobá. A originalidade brasileira na apresentação deste doce fechou com chave de ouro o primeiro dia Terra Madre!
primeiro tava assim na mesa, o jatobá fechadinho...
e dentro a surpresa! show de bola!
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Finalmente a bandeira! - Venezuela 1x0
Foi tudo muito mais rápido e confuso que eu podia imaginar. Quando cheguei ao evento quase todas as bandeiras e voluntários já estavam prontos, por pouco não fiquei sem entrar. É isso, o que primeiro me parecia uma presepada, na hora H era um sonho. Quando vi que não tinha mais país para acompanhar fiquei arrasada. Confesso. Um organizador se apiedou de mim (para alguma coisa serviu as caras que ensaiei) e convenceu uma senhora que já fez este trabalho várias vezes de trocar comigo. Roubei o doce da senhorinha, sem nenhuma vergonha, pronto falei. (mas depois ficamos amigas e ela entrou como delegada de Iemen - que não chegou a tempo).
E assim fui feliz, feliz, acompanhar um rapaz super jovem chamado Javier, da Venezuela! Ele faz um trabalho voluntário com os agricultores da região da sua cidade fazendo o link entre produtores e consumidores. São 25 voluntários, 100 cestas de verduras e produtos por semana e uma mudança na realidade da região. Trouxe para a Terra Madre batata preta, vermelha, e outras raízes e frutas que preciso ver amanhã, pois nunca ouvi falar.
Nada de bandeira do Brasil, mas vou seguir os conselhos de Lilian no outro post: abraçar a idéia de conhecer mais da Venezuela, da alimentação ao país, que Javier já me deu várias dicas de praias...
E assim fui feliz, feliz, acompanhar um rapaz super jovem chamado Javier, da Venezuela! Ele faz um trabalho voluntário com os agricultores da região da sua cidade fazendo o link entre produtores e consumidores. São 25 voluntários, 100 cestas de verduras e produtos por semana e uma mudança na realidade da região. Trouxe para a Terra Madre batata preta, vermelha, e outras raízes e frutas que preciso ver amanhã, pois nunca ouvi falar.
Nada de bandeira do Brasil, mas vou seguir os conselhos de Lilian no outro post: abraçar a idéia de conhecer mais da Venezuela, da alimentação ao país, que Javier já me deu várias dicas de praias...
Cerimônia
Um pouco agora do evento de abertura, este sim cheio de emoção!
Foram selecionadas pessoas de importantes projetos para falar um pouco do seu trabalho e visão da alimentação, biodiversidade, política pública.
Entre o presidente da FAO, o brasileiro José Graciano da Silva, criador do projeto Fome Zero, ao "pop" Carlo Petrini, teve de tudo. E tudo emocionante e cheio de vida.
Mas, para mim, o ponto alto foram duas mulheres. Primeiro Vandana Shiva, uma indiana que luta a favor da conservação das sementes crioulas. Uma mulher que não tem medo de enfrentar interesses internacionais como o da Monsanto e de toda a indústria dos transgênicos. Foi ovacionada!
Depois uma japonesa, Yoko Sudo. Filha de agricultores da região de Fukushima, que contou um pouco de tudo que ocorreu na vida das pessoas, principalmente os agricultores, depois do vazamento da usina. Uma história de arrepiar. Começou dizendo que estava ali para lembrar a todo o mundo o perigo das usinas nucleares. E terminou fazendo um apelo a favor de tantas energias "limpas" que podem ser utilizadas.
Meu grito final poderia ser: Viva as mulheres! Mais detalhes de tudo que rolou no site do Terra Madre.
Yoko Sudo - imagem do site Terra Madre
A bandeira - parte 2
lá vai o Brasil...
Pela manhã um novo ensaio da entrada das bandeiras. Ontem avisaram que hoje saberíamos que bandeira portamos oficialmente. Saí de casa cedo para garantir que estaria presente neste momento. Mas de novo não decidiram e vamos saber só antes da cerimônia, que é a noite.
São duas entradas de bandeira, uma à direita e a outra à esquerda do palco e já sei o lado que vou estar. A boa notícia é que a bandeira do Brasil é do mesmo lado (a do Butão também). O primeiro obstáculo foi vencido! Agora preciso ser a nona pessoa a ser chamada - claro que já contei quantas bandeiras são até a brasileira.
A novidade engraçada é que sou porta bandeira, mas quem vai portar a bandeira é o delegado convidado de cada país. Eu devo estar ali do lado, acompanhá-lo até o palco e depois que ele subir me virar com a bandeira em mãos. Dizem que devemos acenar quando se disser o nome do país que estamos acompanhando, mas estou achando estranho começar a abanar a mão empolgada se anunciam a Finlândia...
terça-feira, 23 de outubro de 2012
A bandeira - parte 1
Cheguei a Turim para o ensaio da cerimônia de abertura do Terra Madre. Fui convocada para portar uma bandeira. Não tinha nenhuma idéia do que seria e que bandeira seria, mas agora caiu a ficha.
O negócio é como uma olimpíada, entra a bandeira de cada país participante, junto com um representante da nação. O que me parecia uma presepada se tornou uma emoção. E olha que hoje foi só o ensaio e já fiquei arrepiada. São quase 140 países, todo o mundo ali junto, discutindo e mostrando sua alimentação, seus valores, aquilo que guardam como uma herança da sua história.
A briga agora é pela bandeira ;)
Pelo jeito sou a única estrangeira no grupo, e claro, nesta hora o amor à pátria vem com força total e eu tô louca pra portar a bandeira das terras tupiniquins. Mas...não se pode escolher! Começo a pensar nas minhas melhores caras de piedade e misericórdia para propor uma troca caso o destino me dê outra das 140 bandeiras presentes. Por favor torçam por mim, aceito inclusive velas e benzedeiras. O Brasil é queridinho por aqui, é umas das bandeiras disputadas...
Mas já começo a aceitar segundas opções. Já viu a bandeira de Butão como é bonita?
O negócio é como uma olimpíada, entra a bandeira de cada país participante, junto com um representante da nação. O que me parecia uma presepada se tornou uma emoção. E olha que hoje foi só o ensaio e já fiquei arrepiada. São quase 140 países, todo o mundo ali junto, discutindo e mostrando sua alimentação, seus valores, aquilo que guardam como uma herança da sua história.
A briga agora é pela bandeira ;)
Pelo jeito sou a única estrangeira no grupo, e claro, nesta hora o amor à pátria vem com força total e eu tô louca pra portar a bandeira das terras tupiniquins. Mas...não se pode escolher! Começo a pensar nas minhas melhores caras de piedade e misericórdia para propor uma troca caso o destino me dê outra das 140 bandeiras presentes. Por favor torçam por mim, aceito inclusive velas e benzedeiras. O Brasil é queridinho por aqui, é umas das bandeiras disputadas...
Mas já começo a aceitar segundas opções. Já viu a bandeira de Butão como é bonita?
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Terra Madre, aí vou eu!
Quem tá me acompanhando nessa epopeia por terras italianas (será que tem alguém aí?) já deve ter percebido que alguma coisa mudou no ritmo da comunicação. É que meu ritmo interno mudou. Tenho agora poucos dias de Itália – e depois 4 em Portugal, antes de voltar para o Brasil e já me sinto “arrumando as malas”. Pra completar hoje estou despedindo do Pietro, de Certaldo, dos dias maravilhosos que tive nesta fazenda. Entre tantas idas e vindas aqui se tornou minha casa, o lugar que voltava pra dormir bem, contar as histórias, andar de motorino pela Toscana, estar com este pai-emprestado-da-aurora que virou um pai-de-verdade-italiano.
Os preparativos agora são para o Terra Madre, o maior evento do mundo slow food, que acontece esta semana em Turim. A boa nova é que vou participar como voluntária. Proporcionalmente é como um apaixonado por futebol trabalhar como gandula na Copa do Mundo. Não importa o tanto que eu tenha que correr, eu tô ali, nos bastidores. A dificuldade é que devo estar lá antes, pensar nos eventos que quero participar, cursos, me concentrar. E concentrar tá difícil neste momento...
Mas como não trabalho todo o tempo, sobra um pouquinho para ver o Terra Madre que este ano acontece junto com o Salone del Gusto. Ainda não consigo ter claro a diferença entre os dois eventos, mas essa informação é repetida tantas vezes em todo material do evento que assim que entender melhor, compartilho! O que sei é que estão fazendo uma horta de 400 m2 dentro do espaço para mostrar o projeto 1000 hortas na áfrica. E posso dizer que 400 m2 de horta não é pouca coisa não. Que no dia da abertura trabalho como porta bandeira, mas não faço a menor ideia que bandeira seja, do quê ou de onde. E que claro, seria lindo se fosse uma bandeira do Brasil (mas também estaria contente com uma bandeira de um país da África ou Ásia). Que tem uma delegação tupiniquim, que entre outros assuntos participará do simpósio sobre queijos artesanais feitos com leite cru, ainda que este não seja o nome oficial do simpósio.
Dá pra ver que sei tudo e nada. E é assim que quero ir pro Terra Madre com uma noção do que acontece, mas principalmente com muita disposição de descobrir. É quase a apoteose dessa viagem, tudo-ao-mesmo-tempo-e-junto!
Por isso pra quem ainda está aí, um pouquinho de paciência com o novo ritmo. Deixo abaixo uma receita do site do Terra Madre, pra ir dando o gostinho dos dias que virão!
Cozinhando sem desperdício: Timpano Napolitano
Uma massa clássica do sul da Itália será a estrela da oficina Cozinhando com Sobras (Cooking with Waste) “Massas recheadas e Timballi” do Salone del Gusto e Terra Madre em outubro. O chef napolitano Antonio Tubelli ensinará a sua receita de timpano, o típico prato feito de camadas de massa, carne e queijo, cuja origem é o aproveitamento das sobras do almoço de domingo.
Antonio explica: “Tradicionalmente, o ragu, que é um molho de carne, tinha vida longa. A panela ficava fervendo no fogão no sábado à noite e na mesma noite ou no domingo de manhã, a família costumava molhar pedaços de pão no molho. Uma grande quantidade de massa era feita para comer com o molho no almoço de domingo. Na segunda-feira, o que sobrava da massa e do molho era usado para preparar o timpano, com a adição de um pouco de mozzarella.”
As variações deste prato são tantas quanto são os chefs e não existe uma receita “oficial”. Tradicionalmente, é feito numa caçarola esmaltada, mas uma forma de bolo grande e funda também serve. Pode-se adicionar uma grande variedade de ingredientes, como ervilhas, pequenas almôndegas e ovos cozidos. A beleza de cozinhar sem desperdício está nisso – adaptar a sua receita ao que há na sua dispensa. Bom apetite!
“Timpano” Napolitano
Serve 6-8
6 kg de tomates San Marzano maduros, para o molho
8 colheres de sopa de azeite de oliva extravirgem
sal a gosto
300 g de carne de porco
300 g de costelinhas de porco
300 g de carne de vitela
2 cebolas médias picadas
2 colheres de sopa de extrato de tomate ou de pimentão vermelho
200 ml de vinho tinto
Um punhado grande de folhas de manjericão
1 kg de ziti (massa em tubinhos)
50 g de manteiga
3 colheres de sopa de farinha de rosca
500 g de mozzarella fresca cortada em cubinhos
250 g de queijo parmesão ralado
Comece preparando o molho de tomate – um simples purê de tomates. Aqueça duas colheres de azeite de oliva, adicione os tomates cortados em pedacinhos, uma pitada de sal e cozinhe até que fiquem macios. Bata no liquidificador, passe o molho na peneira e reserve.
Para fazer o tradicional ragu napolitano (molho de carne), doure a carne cortada em pedaços grandes em seis colheres de azeite de oliva. Adicione a cebola e o extrato de tomate ou pimentão e, em seguida, o molho de tomates, o vinho e o manjericão. Começa, então, o lento processo de cozimento: deixe cozinhar em fogo brando, com a panela tampada, durante algumas horas, adicionando um pouco de água se começar a secar – deixe o molho reduzir até ficar cremoso.
Depois disso, cozinhe os ziti numa panela grande com água fervente até que fiquem al dente. Depois de escorrer a massa, adicione o ragu, separando os pedaços de carne grandes.
Para preparar o timpano, preaqueça o forno a 180ºC e unte uma forma ou caçarola funda de 26 cm de diâmetro com manteiga e polvilhe com a farinha de rosca. Espalhe metade da massa no fundo da forma e cubra com os pedaços de carne do ragu – que estarão desmanchados - e a mozzarella em cubinhos. Cubra com o resto dos ziti e finalize com uma camada generosa de queijo parmesão. Asse no forno por 15/20 minutos.
Desenforme o timpano num prato grande e sirva quente.
Clique aqui para visitar o website do Salone del Gusto e Terra Madre.
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domingo, 7 de outubro de 2012
Leite cru e slow food
Já que o assunto da vez é queijos tradicionais, transcrevo aqui um pedaço da fala de Piero Sardo, presidente da Fundação Slow Food para a Biodiversidade, sobre o leite cru. A fala inteira está disponível no site do Slow Food Brasil , escrita para o I Encontro Nacional do Grupo de Trabalho do Slow Food Brasil sobre Queijos Artesanais e do I Simpósio de Queijos Artesanais do Brasil, realizados em Fortaleza, em novembro de 2011. O assunto será aprofundado no Terra Madre, com a conferência sobre Leite Cru nos Trópicos, e a participação de produtores brasileiros de queijo artesanal.
...Mas então surge, uma pergunta, absolutamente espontânea: qual a razão desta atitude criminalizante em relação ao leite cru? Porque há uma atitude diferente em relação ao sushi, às ostras, ou às carnes que se comem cruas? Porque este afinco – pois sim, é um verdadeiro afinco – contra o leite cru. Porque por trás há interesses enormes. Há as grandes empresas, as grandes multinacionais que querem ter a liberdade de comprar o leite onde mais lhe convém – onde o preço for mais baixo – e querem processá-lo com métodos que nada têm a ver com os métodos artesanais, naturais, bons. Estes lobbies, presentes em qualquer lugar, pressionam os governos, em nome da segurança alimentar, que parece ser um tema que assusta, que alerta o consumidor. Pois bem, chegou a hora de dizer com clareza que o tema da segurança alimentar em relação ao leite cru é um espantalho, exagerado e, em alguns casos, até falso. Pois a questão não é apenas o processamento do leite cru, o problema verdadeiro é que o leite de origem, o leite com o qual se produz o queijo, deve ser um leite de qualidade. É isto que as instituições devem garantir. Devem garantir que os animais sejam sadios, que não tenham doenças como tuberculose ou brucelose, e que os métodos de produção respeitem a higiene necessária. E que nós, no Slow Food, sempre defendemos a higiene.
Mas se o leite for de qualidade, se os animais forem sadios, se os procedimentos previstos são cumpridos, a produção do queijo a partir do leite cru é a única forma de garantir a excelência, a única forma de garantir a biodiversidade.
Mas se o leite for de qualidade, se os animais forem sadios, se os procedimentos previstos são cumpridos, a produção do queijo a partir do leite cru é a única forma de garantir a excelência, a única forma de garantir a biodiversidade.
E isto tudo é ignorado, como se não houvesse diferença nenhuma entre a produção com leite pasteurizado e com leite cru.
Pois bem, é preciso repetir com clareza que a única forma de produzir qualidade, qualidade de alto nível, é a partir do leite cru. Independentemente do bom. Porque o consumidor poderia dizer: “a segurança de um lado, o bom do outro. Pois talvez eu prefira comer produtos um pouco mais padronizados, mas ficar mais tranquilo”. Eu acho que a aposta é muito alta, aqui estamos discutindo um conceito de liberdade de escolha. Isto é: o consumidor deve ter a liberdade de escolher o que ele quer comer. O rótulo deve declarar de forma clara se o queijo é produzido com leite cru ou com leite pasteurizado. Se foram utilizados fermentos industriais ou não, e uma vez que o rótulo conter estas informações, o consumidor deverá ter o direito de escolher. O “DIREITO”. E ele vai escolher o leite cru, porque é uma forma de garantir uma boa refeição, um bom queijo, uma boa qualidade organoléptica.
E não é apenas isto: o tema da liberdade é fundamental. Por isto peço seu apoio, peço que aprofundem estas informações.
Mas há também o tema da biodiversidade, como estava dizendo agora há pouco: quando se destrói toda a flora bacteriana presente num determinado lugar e num determinado leite, se está produzindo uma seleção violenta da biodiversidade. Uma biodiversidade microbiana, que não se enxerga, e que por isto desperta menos a emoção. Mas se trata de uma biodiversidade: qualquer lugar de produção, qualquer fábrica de queijo tem sua própria biodiversidade. Se a gente a destruir em nome de uma declarada segurança alimentar, para inserir uma única bactéria selecionada, quase sempre produzida industrialmente, a gente estará atuando uma seleção violenta desta biodiversidade que, infelizmente, não se vê. Como também não se vê a situação de nossos oceanos. Porque que o nosso oceano é tão penalizado em relação a outras situações de biodiversidade, como a floresta, as áreas lacustres, ou os animais em vias de extinção? Porque, infelizmente, debaixo d’água não conseguimos enxergar o desastre que está sendo cometido. E a mesma coisa acontece com as pequenas microfloras locais, com o conjunto de bactérias que atuam na produção do queijo. Não se enxergam, e portanto podem ser tranquilamente destruídas, utilizando bactérias produzidas artificialmente...
Piero Sardo – Presidente da Fundação Slow Food para a Biodiversidade
Outubro/2011
domingo, 16 de setembro de 2012
Que caixas, que nada!
Os expositores do Salone del Gusto e Terra Madre entrarão num concurso para demonstrar que mesmo os sabores tradicionais precisam de inovações para garantir embalagens realmente ecológicas. Está chegando ao Lingotto o Prêmio SlowPack 2012.
As embalagens são um dos resíduos domésticos mais frequentes. Como podemos evitar as latas, os plásticos e as embalagens que enchem os supermercados?
Com a primeira edição do Prêmio SlowPack, o Slow Food abre as portas para novas ideias. O concurso será realizado ao mesmo tempo que o Salone del Gusto e Terra Madre e será aberto a todos os produtores expondo produtos no Salone.
O objetivo é refletir sobre o impacto das embalagens tradicionais no meio ambiente e na qualidade e segurança dos alimentos.
Há alguns anos, os produtores da rede do Slow Food estão empenhados na implementação de embalagens ecológicas e inovadoras.
Na região da Campania, na Itália, por exemplo, alguns produtores usam redes biodegradáveis para embalar aspapaccelle napolitanas, os pimentões de uma Fortaleza Slow Food. A embalagem é fechada manualmente, sem dispositivos ou materiais adicionais, respeitando, assim, o critério de redução de componentes.
O cominho de Alnif, uma Fortaleza Slow Food do sudeste do Marrocos, é vendido no mercado local em saquinhos plásticos fechados com fita adesiva. A Fundação Slow Food para a Biodiversidade projetou uma embalagem reciclável, a baixo custo. Os produtores estão envolvidos também na realização da embalagem do produto. A caixa, feita em papelão totalmente reciclado, não tem partes coladas.
No Quênia, para dar outro exemplo, a comunidade Bukusu empacota o sal de cana do rio ‘Nzoia (Fortaleza Slow Food) de forma simples, ecocompatível e com custo zero: duas folhas de bananeira cultivada no local são secas nas cinzas quentes durante uma noite inteira, dobradas em forma de trouxinha e fechadas com um fio obtido das mesmas folhas. O sal é vendido no mercado local, sem sacos plásticos ou outros materiais.
Desde 2008, os produtores de alho vermelho de Nubia, uma Fortaleza da Sicília, na Itália, fazem um trançado novo com quatro cabeças de alho, que forma um tipo de alcinha para pendurar.
O prêmio SlowPack 2012 será dedicado especialmente a problemas como a recuperação de formas tradicionais de embalagem e conservação; inovação e sustentabilidade de materiais reutilizáveis, recicláveis e biodegradáveis derivados de processos de alta eficiência energética; rótulos capazes não só de comunicar de forma clara a origem dos ingredientes e a história do produto, mas também de sugerir como reutilizar ou eliminar a embalagem.
O Slow Food está ansioso para analisar as propostas dos produtores. Os vencedores do prêmio SlowPack 2012 serão anunciados durante o Salone del Gusto e Terra Madre, o encontro é de 25 a 29 de outubro em Turim!
Texto do site: http://salonedelgustoterramadre.slowfood.com
Outro dia vi a programação do Terra Madre...é como essas embalagens, de enlouquecer! Fico só sonhando com as embalagens DaHorta...
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Sicília-Argélia cous to cous
No Salone del Gusto e Terra Madre, um Laboratório do Gosto aproximará a tradição do cuscuz das duas margens do Mediterrâneo... um desafio até o último grão! Cuscus, cuscussù, cous cous, kiskusu, seksu… da Sicília ao Norte da África, são inúmeras as variantes deste prato. O Laboratório do Gosto “A Rede do Terra Madre: Sicília-Argélia cous to cous”, no próximo 29 de outubro, oferece a oportunidade de encontrar duas interpretações do cuscuz e duas grandes histórias. A história de Marilù Terrasi, chef e dona do restaurante Pocho de San Vito lo Capo, a especialista do cuscuz à moda de Trapani; e Sid Alì Lahou, chef e fundador de uma cooperativa que produz o cuscuz a partir de farinhas orgânicas, na Argélia. «O cuscuz é um ritual de espera. É preciso paciência, tempo, tranquilidade». Marilù Terrasi define assim o prato que ela prepara todo domingo para os seus clientes num bairro de San Vito lo Capo, na Sicília. Marilù se formou em filosofia e já foi pesquisadora em Palermo. Hoje, entre outras coisas, é chef do Pocho, um restaurante cujo nome é o mesmo do gato mascote da sua companhia de teatro. O teatro é uma experiência que se repete toda noite, quando a cozinha fecha e Marilù entretém seus clientes com canções e relatos da tradição local. Na outra margem do Mediterrâneo, Sid Alì Lalhou é um produtor argelino apaixonado e atípico, um autodidata que se tornou chef e diretor de uma cooperativa que produz até três toneladas de sêmola por dia para 14 tipos diferentes de cuscuz: trigo, aveia, arroz, centeio, milho, misto dois cereais, aromatizado com lavanda, tomilho ou menta e também um tipo sem glúten. Todos rigorosamente orgânicos e produzidos à mão pelas mulheres da cooperativa. Sid já esteve em Turim durante o Terra Madre 2010 e mal pode esperar para encontrar Marilù: «Eu estive em San Vito lo Capo em 2005, quando ganhei um concurso no Cous Cous Fest com uma receita à base de farinha de cevada orgânica. Na oficina, também vou apresentar o cuscuz de cevada com alho-poró e grão de bico. De dar água na boca!» As vagas são limitadas: faça agora a sua inscrição para o Laboratório do Gosto. A Rede do Terra Madre: Sicília-Argélia cous to cous, em Turim, segunda-feira, dia 29 de outubro às 14:30, 20 euros para os sócios, 25 para os não sócios Cous cous da tradição de Trapani Ingredientes para oito pessoas: 1 kg de sêmola grossa água 2 cebolas azeite, sal e pimenta do reino a gosto pimenta malagueta, canela, louro, salsa 1 cabeça de alho 1 kg de peixe misto para o caldo, e uma quantidade de peixe a gosto para fritar 2 litros de massa de tomate ou de molho de tomate 150 g de amêndoas, um limão Num recipiente de barro, coloque aos poucos a sêmola. Faça pequenas bolinhas com a mão direita e, com a esquerda, salpique com um pouco de água. Tempere com azeite, sal, pimenta-do-reino, canela, cebola e salsa picadas; coloque-o na cuscuzeira com algumas folhas de louro e a casca de limão. Cozinhe a vapor durante aproximadamente uma hora, acrescentando, na água fervendo, cheiro verde, cravo e canela e uns peixinhos. Prepare uma sopa de peixe: refogue a cebola cortada em rodelas com bastante azeite. Adicione tomate, sal e pimenta-do-reino, uma pitada de malagueta, canela e um pesto preparado com dentes de alho, salsa e amêndoas. Deixe cozinhar aproximadamente vinte minutos e adicione, no final, o peixe limpo para o caldo. Despeje o cuscuz cozido a vapor numa tigela grande, adicione metade do caldo e uma parte do peixe despedaçado. Cubra com um pano de lã e deixe descansar cerca de 45 minutos. Sirva com o restante do caldo. Pode ser servido com uma mistura de peixes fritos em azeite de oliva. É uma base que pode ser usada para outros tipos de cuscuz, substituindo o peixe por carne de porco, de cordeiro, legumes e verduras e temperos de acordo com o gosto de cada um. www.pocho.it Seffa (Cuscuz doce) 1 kg de cuscuz 50 g de amêndoas picadas 50 g de nozes picadas 100 g de passas de uva 40 g de mel 50 g de manteiga 50 g de tâmaras 50 g de damascos secos 50 g de farinha de amêndoa 2 colheres (de sopa) de azeite de oliva Tempo de preparo: 20 minutos Tempo de cozimento: 20 minutos Coloque de molho em água quente, durante aproximadamente duas horas, as amêndoas, nozes e passas. Escorra as passas e cozinhe a vapor por 15 minutos. Coloque o cuscuz de molho, escorra-o e deixe descansar durante 15 minutos. Cozinhe a vapor por 10 minutos e molhe-o com água salgada. Misture o cuscuz com a farinha de amêndoa, as nozes e as passas. Cozinhe o cuscuz novamente a vapor por mais 10 minutos. Retire do fogo, misture bem e acrescente azeite e manteiga. Complete com mel e decore com as tâmaras cortadas pela metade, os damascos secos, as amêndoas, as nozes picadas e um pouco de passas. www.lamaisonlahlou.com Esta matéria é do site da Terra Madre, principal evento do Slow Food que acontece em Outubro em Turim. Eu vou! Quem se anima? |
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