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domingo, 19 de agosto de 2012

O chapéu do Paquito

                                                                                                          Palermo, 19 de Agosto de 2012

Ei pai! Tudo bem?

Como vão as coisas na fazenda? A linhaça tá grande, já tem flor? Por favor não deixe de me mandar uma foto do campo de borboletas azuis... e o morango, como está este ano? Os seres elementais continuam fazendo aquela pegadinha na hora da colheita?
Ando com saudade do seu iogurte, aqui não encontrei nenhum à altura. Na França tomei o iogurte grego, muito bom. No sul da Itália que é muito mais perto não tem, ou quando tem não é bom como o seu...

Estou gostando muito de Palermo, primeiro levei um susto com tanta coisa que acontece ao mesmo tempo, tanta coisa para ver e ficar atenta. Mas agora depois de pousar meu olhar com calma, vejo uma cidade bela, antiga, forte. É diferente de outras regiões da Itália porque tem muita influência espanhola, árabe e do norte da Europa. Isso deu um ar único às igrejas e construções. Junto com todos os povos que se encontram aqui atualmente. Imagina que você está no meio de uma feira de rua, super popular, cheia de indianos e do lado tem uma igreja toda barroca para visitar. É assim, tudo junto e ao mesmo tempo.

Tenho provado muita coisa gostosa, o bom de gostar de comida é que todo dia tem que comer, certo? Umas três vezes pelo menos... assim faço de cada refeição uma viagem gastronômica às tradições culturais sicilianas, mesmo que seja só um sorvete dentro do pão. Pensei que lembra nosso pão molhado no café com leite, assim escolho sempre um sorvete de café e outro de creme, ou iogurte. O sorvete de pistache aqui é uma coisa de louco, impossível explicar, mas tem pedacinhos de pistache e um sabor que algumas vezes é um pouco salgado, não sei como dizer. É perfeito, pronto falei. Ainda não consegui ver a árvore do pistache, mas já vi na internet, um paliativo... Estou agora encantada com a massa de grão de bico que eles fritam, como um pastel, se chama panella, vende na feira aqui embaixo, tentador... mas tento me controlar porque as  bochechas já estão crescendo...eles comem essa massa dentro do pão, demais pra mim, prefiro ela pura, como um tira gosto.

Ontem fui numa cidadezinha linda, Cefalú, cidade de praia, mar Tirreno, azulzinho. Agora que sei que o mediterrâneo tem vários nomes, estou colecionando mares: Iônico, Adriático, Tirreno, quem sabe não vou no mar da Ligúria quando retornar à Toscana. Depois do banho de mar caminhei pelo centro histórico da cidade, tinha um lavatório todo de pedra, subterrâneo, água fresca, um bálsamo no calor que faz aqui. É bem turística, toda vendinha com as lembranças sicilianas... Adoro a bandeira da Sicília com uma cabeça de medusa e três pernas, tem um ar circense e mitológico ao mesmo tempo. Depois procura na internet e me diz o que acha.


Hoje estava andando na praça 4 cantos, um cruzamento das duas principais avenidas da cidade e dei de cara com uma carruagem muito elegante (me lembrou um pouco aquela que Asterix e Obelix compram numa história e depois começa a chover, o cavalo perde a cor, a roda quebra, onde é mesmo que acontece isso?). Mas o cavalo era lindo.Mais que isso, tinha um chapéu! O chapéu era tudo de bom! Parecia um cavalo mineiro... Logo fiquei amiga do Paquito e do seu dono. Depois mais duas vezes encontrei com eles, no Teatro Massimo e na Catedral. Antes de visitar a Capela Palatina, uma igreja belíssima, das mais bonitas que vi nesta viagem, toda em mosaico, um carinho para os olhos e para o coração.

Mando a foto do Paquito elegantíssimo, pronto para um arraiá de São João, presente de dia dos pais atrasado, ou de aniversário adiantado.

Um beijo grande, estou com saudades,

TT

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Sabores sicilianos


Não sei bem sobre o quê escrever. Não vou ter aqui a mesma relação que tive em Puglia, com a cozinha salentina, onde eu pude estar na cozinha, conhecer, conversar, fazer os pratos tradicionais. Aqui sou meramente uma turista olhando as vitrines. E provando o que tem dentro delas...

Por sorte tenho um amigo que me levou para jantar num restaurante pequenininho de frutos do mar. Delicioso. O peixe da Sicília é muito bom e famoso. Pra você ter idéia, o atum pescado nas vizinhanças é mandado para o Japão, para ser comido cru. Aqui, o  atum em conserva é prato chique. Nada de macarrão de desespero com pomarola. É um produto de denominação de origem controlada (DOC). Peixe é parte fundamental da culinária siciliana. Uma iguaria local e que só se encontra aqui é a botarga, ovas de peixe defumada. São fortes, servem para ralar sobre a pasta pronta, como um queijo. Não sei bem como fazem mas é uma coisa compacta, como um salame.  

Os doces sicilianos são famosos em toda a Itália. Os mais populares são aqueles com ricota. Descobri que geralmente são feitos com leite de ovelha e que são melhores no inverno, quando a ricota é mais fresca. Para os italianos são exageradamente doces. Isso porque eles não conhecem o brigadeiro brasileiro. Nada é muito doce para a terra da cana de açúcar. Têm muitos doces com pistache e amêndoas. Dois xodós da produção local. Não sou fã de doce mas estou disposta a provar todos, os famosos canole e cassata já estão aprovados, leves, delicados no sabor, muito bom. Aqui encontrei a pasta para fazer o leite de amêndoas e também de pistache. Já tá na bagagem (que a alfândega não me leia).

O salgado típico é o arancino, um croquete feito com arroz e vários recheios diversos, o mais comum é o de ragu ou de mussarela. Vale por uma refeição. Todo lugar tem, uns mais picantes outros menos. É uma especialidade culinária antiga, remonta ao século X. Tem esse nome porque parece uma laranja (arancia), uma bolota dourada frita!


O mais exótico é o tal do brioche com sorvete (olha eu aí, me adaptando aos costumes locais, um sorvete de creme e outro de pistache) . Fiquei pensando que a matéria prima da casca do sorvete deve ser a mesma do brioche. Mas nada é capaz de acabar com minha surpresa quando vejo alguém passando com aquele sorvete dentro do pão, como se fosse a coisa mais normal do mundo. O tradicional mesmo é com a granita, que é siciliana, influência árabe. É linda, porque é um bloco grande de gelo que o vendedor raspa, coloca num copo e depois joga o xarope do sabor que você escolher. Eu só peço de limão.

A maior surpresa foi o limão siciliano. Sei que agora não é época de limão aqui - apesar de limão não ter mais época -, mas todos que vi até agora são bem diferentes daqueles sempre amarelinhos e bonitinhos do Brasil. Aqui são irregulares, com tons que vão do verde ao amarelo, passando pelo marrom (dá pra acreditar?), mas, claro, saborosíssimos. Quem vê casca, não vê limão.




quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Todos os povos


Quinze de Agosto, ontem, era feriado nacional, tudo fechado. Mas as vendas de indianos, senegaleses, muçulmanos são abertas. Toda uma região, onde se escuta todas as línguas, menos italiano.  Se come samosa, kebab, cuscus. Caminho em direção ao Jardim Botânico, um indiano, de menos de vinte anos, começa a conversar comigo, quer me conhecer, faço que não entendo, que não falo italiano, ele insiste agora numa mistura de italiano, inglês, português: birra, birra, today, dopo my lavoro, obrrrigado. Fujo.
O conceito de mercado é um pouco diferente de tudo que eu conhecia. É uma região, um bairro. Milhares de vielas com construções de 2 a 5 andares dos dois lados, com roupas penduradas em cima da sua cabeça, de repente surge um largo onde um monte de barracas se aglomeram. É apertado e súbito pode ter uma moto em cima de você ou um taxi aberto, uma mistura de uma vespa gigante, com um pedalinho. Peixe, verduras, pão, roupa, além das bancas tem milhares de portinhas oferecendo de cerveja a roupa de cama. Os vendedores parecem uma orquestra. Um começa a cantar seu produto, outro entra com um tom mais grave, logo tem outro mais agudo e a música soa por todos os lados, impossível entender qualquer coisa. E a coisa se repete a cada largo com um outro aglomerado de barracas, peixe, frutas, coisas de casa, soando uma nova sinfonia. Tem muitos produtos diferentes como a abóbora d'agua, e suas folhas, que me dizem ser comestível. Um figo da índia rosa por dentro, lindo. Banana, limão siciliano (claro), abacate...O café da manhã na vendinha da esquina é um tipo de brioche com uma bola de sorvete de café dentro. Único. Não posso dizer mais nada. A senhora loira, maquiada para uma festa, com um penteado alto, me pergunta se vou comer lá ou levar para casa - como posso portar à casa aquele sorvete derretendo dentro do pão? Como observando como fazem o casal de velhinhos ao meu lado. Tem lixo por todo lado, em alguns lados mais. Parecem verdadeiros depósitos de lixo em meio à cidade, junto com garrafas de plástico, um colchão velho, caixas de papelão, restos de um brinquedo e de uma geladeira,  e pombos que fazem a festa.
No ônibus a caminho do mar, um senhor franzino, de 62 anos, me cede seu assento, insisto que não é preciso, mas ele já se levantou e claramente trocou este assento por uma conversa. Fala comigo em dialeto. Não entendo nada. Tento dizer a ele, que não me ouve. Agora me mostra o santinho da mãe e conta que é morta, depois reclama do preço da água. Desisto de dizer que não entendo bulhufas e aceno com a cabeça, concordando. A praia é logo ali.
Conheço um casal jovem de chineses, estão perdidos como eu no bairro-mercado de Ballaro, onde é o hostel que estou hospedada. Conversamos num inglês difícil, o menino fala um pouco a menina só ri, eu sou a melhor o quê não é muita coisa. Ele fala da sua paixão pelo futebol brasileiro eu falo da minha pelo tai chi. Eu não sei nada de futebol, ele não sabe nada de tai chi. Desistimos da conversa, inútil para os dois, caminhamos calados.
Estou encantada, o caos tem nome: Palermo.



Boníssimo isto: barraca de melão, depois uma de roupa e bugingangas, depois o pão!



Figo da índia colorido, naturalmente! descascado sem espinhos, perfeito! 


Uma feira de coisas usadas bem embaixo à minha janela, no canto esquerdo é lixo.