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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

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Adoro a Mafalda do Quino. Fico impressionada que ela morreu antes deu nascer (sim, não recordo o ano, mas Quino parou de escrever suas histórias antes de 79). Meu quadrinho preferido é um em que ela está colocando o agasalho do lado do globo terrestre. Passa primeiro a cabeça, depois um braço e quando está terminando o outro esbarra no globo, que cai no chão. Ela para, com a blusa ainda pela metade, olha o globo no chão e diz; - eu poderia dizer milhares de coisas sutis, mas não estou com vontade.

Tô mais ou menos assim hoje. Tenho uma dor nas costas que beira o insuportável. Uma gripe que está me rodeando...

Poderia dizer tanta coisa destes dias no Podere le Fornaci. Pastorear as cabras entre tantos campos de videira foi uma experiência única. A delícia dos queijos, as degustações e almoços que Michele prepara para os turistas que vêm conhecer a fazenda. O tanto que é perto da Macelleria Cecchini, que rola de ir almoçar despretensiosamente numa terça feira...Mais que tudo das pessoas maravilhosas que conheci aqui... Mas hoje não vai rolar. Não tô com vontade. Deixo fotos.


degustação de queijos


 sobremesa super gourmet de Michele: mel, ricota (do dia) e canela


a família cresceu, Alita é a nova moradora da fazenda. dá vontade de comer! lea, michele, francesco e eu.


a pastorinha australiana - wwoofer - com as cabras entre bosques e casas em chianti



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Sabores sicilianos


Não sei bem sobre o quê escrever. Não vou ter aqui a mesma relação que tive em Puglia, com a cozinha salentina, onde eu pude estar na cozinha, conhecer, conversar, fazer os pratos tradicionais. Aqui sou meramente uma turista olhando as vitrines. E provando o que tem dentro delas...

Por sorte tenho um amigo que me levou para jantar num restaurante pequenininho de frutos do mar. Delicioso. O peixe da Sicília é muito bom e famoso. Pra você ter idéia, o atum pescado nas vizinhanças é mandado para o Japão, para ser comido cru. Aqui, o  atum em conserva é prato chique. Nada de macarrão de desespero com pomarola. É um produto de denominação de origem controlada (DOC). Peixe é parte fundamental da culinária siciliana. Uma iguaria local e que só se encontra aqui é a botarga, ovas de peixe defumada. São fortes, servem para ralar sobre a pasta pronta, como um queijo. Não sei bem como fazem mas é uma coisa compacta, como um salame.  

Os doces sicilianos são famosos em toda a Itália. Os mais populares são aqueles com ricota. Descobri que geralmente são feitos com leite de ovelha e que são melhores no inverno, quando a ricota é mais fresca. Para os italianos são exageradamente doces. Isso porque eles não conhecem o brigadeiro brasileiro. Nada é muito doce para a terra da cana de açúcar. Têm muitos doces com pistache e amêndoas. Dois xodós da produção local. Não sou fã de doce mas estou disposta a provar todos, os famosos canole e cassata já estão aprovados, leves, delicados no sabor, muito bom. Aqui encontrei a pasta para fazer o leite de amêndoas e também de pistache. Já tá na bagagem (que a alfândega não me leia).

O salgado típico é o arancino, um croquete feito com arroz e vários recheios diversos, o mais comum é o de ragu ou de mussarela. Vale por uma refeição. Todo lugar tem, uns mais picantes outros menos. É uma especialidade culinária antiga, remonta ao século X. Tem esse nome porque parece uma laranja (arancia), uma bolota dourada frita!


O mais exótico é o tal do brioche com sorvete (olha eu aí, me adaptando aos costumes locais, um sorvete de creme e outro de pistache) . Fiquei pensando que a matéria prima da casca do sorvete deve ser a mesma do brioche. Mas nada é capaz de acabar com minha surpresa quando vejo alguém passando com aquele sorvete dentro do pão, como se fosse a coisa mais normal do mundo. O tradicional mesmo é com a granita, que é siciliana, influência árabe. É linda, porque é um bloco grande de gelo que o vendedor raspa, coloca num copo e depois joga o xarope do sabor que você escolher. Eu só peço de limão.

A maior surpresa foi o limão siciliano. Sei que agora não é época de limão aqui - apesar de limão não ter mais época -, mas todos que vi até agora são bem diferentes daqueles sempre amarelinhos e bonitinhos do Brasil. Aqui são irregulares, com tons que vão do verde ao amarelo, passando pelo marrom (dá pra acreditar?), mas, claro, saborosíssimos. Quem vê casca, não vê limão.




sábado, 4 de agosto de 2012

A redenção da Ricota

Hoje não havia hóspedes para o jantar. Foi bom para conversar com calma, saborear tranquilamente cada prato servido, só a família e eu. Falo sem parar da minha completa admiração pela ricota que eles fazem. E eles começam a me contar mais da história deste queijo, e fiquei boquiaberta, da mesma forma quando provei a primeira ricota que o Roberto me ofereceu.

Estou completamente viciada. Raspo os pratos onde elas são servidas enquanto levo a louça para a cozinha. Fico de olho na porção servida a algum hóspede torcendo para que ele não coma tudo. Só falta sonhar a noite, porque de dia já faço.

Um pouco de história para quem, como eu, pensava que ricota era aquele famoso queijo das dietas. Não, a ricota merece seu lugar de honra junto aos queijos de primeira linha. Aquela outra é algo completamente diferente, a prima anoréxica da ricota de verdade.

Primeira lição: a ricota é italiana. Tem este nome porque é levada ao fogo duas vezes (ri – repetição, cota – cozida). Da primeira se faz o queijo e sobra o soro, que depois volta ao fogo com um pouco de leite e sal para que surja, como num passe de mágica, aqueles gominhos macios em cima na panela. Depois é só recolher esta massa que se forma, colocar numa forma de queijo e assim que o excesso de água sair, comer.

Sim, ela é feita para ser comida fresca, se possível ainda morna. É desse jeito que ela conserva o sabor e a textura ideais. O sabor é levemente doce, com um pouco de sal, suave, perfeito com salgado e como recheio de sobremesas, muito comum nos doces sicilianos. A textura é cremosa, um cremoso diferente porque é muito leve. Não é pesado nem denso, quase derrete na boca.

Enquanto aprendo, vou comendo a ricota do jantar. Mas esta está um pouco diferente das que comi até aqui. A Nonna me explica que é porque já está velha, foi feita antes de ontem, é o limite para consumi-la. Ricota com mais de dois dias não presta, não é ricota italiana.

Exijo retratamento púplico. Discursos em cadeia nacional. Conferências na ONU. Devolvam à ricota o que é dela. Sua honra foi ferida e ninguém, ao menos no Brasil, a tem defendido.

Por falar em vícios, preciso confessar outro: leite de amêndoas.

Sempre gostei dos leites de grãos e castanhas. Não tenho problema com essa coisa de chamar de leite, não faço nenhuma comparação com leite de verdade. Nem me incomodo com o nome emprestado. Digo isso porque acho que muita gente não consegue apreciar estes leites pela comparação, esperando algo muito parecido com o leite de verdade ou um sentimento de exclusão, como se tivesse que escolher entre o leite de vaca ou o de cereais. Cada coisa no seu lugar e tem lugar pra todos na minha barriga.
O leite de amêndoas, no momento, está ocupando um bom espaço no meu paladar e olfato. Aqui se encontra o xarope pronto. Dá pra fazer de várias formas diferentes, apenas acrescido de água. É praticamente um suco, geladinho. No calor é delicioso.

Usa-se muito em doces, com uma massa folhada ou podre e um recheio de creme feito com leite de amêndoas e por cima as amêndoas in natura.

Outro combinação boníssima é o caffé ghiaccio feito aqui. Servido assim: embaixo o leite de amêndoas frio, depois o café quente e por último gelo. Delicioso. Dá um toque delicado à bebida que me agrada, uma pessoa não muito apreciadora de café.

Penso que não é difícil fazer, mas já sei que não é como as outras castanhas que bato no liquidificador, tem que ser prensada.

A pergunta que não quer calar é se esse xarope existe no Brasil, mais especificamente em BH. Por isso peço um favor a quem puder: rola de dar uma passadinha (este termo é muito mineiro, é lindo!) no Verdemar ou no mercado central (naquela banquinha de produtos árabes) e descobrir se vende? Em caso negativo deixo todos meus pertences na Itália e volto só com latte di mandorla na bagagem.



Não deu tempo de fotografar a ricota antes da fuga de rosalinda, mas tá aí o leite de amêndoas para ajudar na pesquisa...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Roberto, o cuocco

A primeira pessoa que conheci na fazenda foi o Roberto, o pai. Ele foi me buscar na cidade vizinha, Lido Marini, não chega nem a ser uma cidade direito, mas nessa época é lotada por causa da praia. À primeira impressão se imagina um homem muito sério, calado, rústico. Talvez porque lembrou o meu pai simpatizei de cara, gratuitamente. Depois ao vê-lo na cozinha onde comanda os famosos jantares da casa me encantei de vez.

Melhor que descrevê-lo é contar algumas situações que vivi com este italiano grandão, sempre com a barba por fazer, andando calma e pesadamente pela cozinha da fazenda.

  • Ele mede a porção de arroz na mão, cada punhado que cabe na sua mão grande, corresponde a uma pessoa. Fácil assim, sem copos intermediários.
  • Toda vez que fatio o pão ou o queijo ele me olha dizendo: não corta tão fino, assim não se sente o sabor de nada.
  • O Roberto é um verdadeiro defensor dos produtos orgânicos e naturais. Não cansa de repetir que o vinho (produção biológica de um amigo) não faz girar a cabeça ou acordar com um gosto estranho na boca, porque não tem solfito, a substância usada normalmente para ajudar a conservar.
  • Ele pode gastar toda uma tarde preparando aquele desfile de pratos para o jantar ou fazê-lo em 20 minutos, igualmente delicioso. Igualmente tranquilo.
  • Outro dia fez uma brusqueta com queiijo de ovelha e marmelada de tomate e me contou que tinha feito aquela marmelada um tempo atrás, imaginando justamente a combinação com o sabor forte do queijo de ovelha. Lindo, não?
  • Eu gosto de ver tudo limpo na cozinha e não paro enquanto não terminamos. Final de semana ele vem, me tira da cozinha e diz que a vida não é só trabalhar, que eu preciso aproveitar mais...e lá vou eu pra praia, sob ordens do cuoco (o cozinheiro).
  • O jantar dura umas três horas. Entre cada ida e vinda à cozinha ele pode conversar com qualquer um, sobre qualquer assunto. Da história da Itália ao crudivorismo. Das melhores praias para tomar banho a como escolher uma melancia. Tudo com muito bom humor, aquele humor irônico, discreto.
  • Uma pessoa ao meu lado diz que o leite cru é muito pesado, difícil de digerir. Vejo Roberto crescendo do outro lado da mesa, ele olha a moça e começa uma verdadeira aula sobre as vantagens do leite cru e fresco, dos malefícios do leite de caixinha, que segundo ele não é leite... um belo texto! Nessa hora pude ver meu pai falando...
  • Ele é a personificação do slow food salentino, na verdade de toda Itália. Conhece toda a tradição alimentar do país, como se prepara, onde é cultivado. Sua filha vai no mesmo caminho e juntos, pai e filha fazem da cozinha um verdadeiro laboratório de degustação e conhecimento.
    O Roberto é um homenzarrão, mas tem uma delicadeza no paladar impressionante. No segundo dia já sabia que eu gostava de conhecer os sabores locais. E me faz provar cada coisa que acha digno de nota. Neste exato momento escrevo deitada na rede depois de ter provado a ricota ainda morna que ele acabou de fazer, deliciosa. Ele me pergunta:
    - Parece um doce, não?


    Não deixe de assistir este vídeo lindíssimo do Roberto preparando o pão no Sarruni.