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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Comida pra Vendemmiar

Contei pro Pietro que uma vez vi no livro do Jamie Oliver na Itália, uma foto dele levando umas lasanhas maravilhosas na carroceria de um trator para os vendemiadores almoçarem. Cena de livro, é claro, mas linda.

O que descobri é que tem de tudo na vendemmia. Fazendas pequenas que trabalham praticamente a família e alguns amigos, e nestes lugares os almoços são momentos de festa, comida e vinho, já celebrando a produção que virá. Outros que cada pessoa leva seu almoço, mais prático, e depois no final fazem um grande dia de festa (sempre tem a festa, como se pode notar) com pizza, vinho, histórias. Aqui na Majnoni Guicciardini é assim, cada um por si na hora de comer. O Pietro já tem coisa demais para se preocupar sem isso.

Mas acho que ele ficou sensibilizado com minha imagem romântica do almoço da vendemmia, e ontem chegou em casa com uma ricota fresca de ovelha feita por um pastor das redondezas e com muita disposição de fazer uma super torta para o jantar. Que claro, sobrava para um super almoço de vendemmia.
A ricota era um negócio de louco, não tenho palavras para descrever. E sempre a premissa, precisa ser comida logo, dois ou três dias no máximo. Eu faço a minha parte, sem problemas, ficar velha é que não vai comigo por perto!

A torta foi mais ou menos assim, digo mais ou menos, porque o Pietro segue três sites diferentes para fazer uma receita, além da parte que ele inventa, é claro. O importante é o resultado, que foi aprovado!

Massa da torta:
1 e ½ xícara (chá) de farinha de trigo
6 colheres (sopa) de manteiga
1 ovo
2 colheres (sopa) de água
pitada de sal

Prepare a massa colocando a farinha de trigo em uma mesa e abrindo um buraco no meio. Coloque no centro da farinha a manteiga gelada cortada em cubos. Misture com a ponta dos dedos até a massa ligar. Bata levemente o ovo com a água e o sal e adicione à mistura de farinha. Ligue a massa. Deixe descansar por 20 minutos.

O recheio é super simples, amassar a ricota e temperar com açafrão (pistilo), um pouco de queijo curado de ovelha, sal, azeite, um ovo e se quiser um pouco de presunto cru picado. O tempero é como você gosta, cheiro verde também pode ficar bom, tudo respeitando o sabor suave da ricota...

Depois é só abrir a massa numa forma com papel manteiga, colocar o recheio dentro e fazer as listras com a massa para ir por cima. Montada, forno, por uns 40 minutos, até a massa dourar. Pronto, depois você tá pronto para trabalhar na colheita das uvas, almoço de vendemmia garantido! Eu posso dizer que passei bem!


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Roberto, o cuocco

A primeira pessoa que conheci na fazenda foi o Roberto, o pai. Ele foi me buscar na cidade vizinha, Lido Marini, não chega nem a ser uma cidade direito, mas nessa época é lotada por causa da praia. À primeira impressão se imagina um homem muito sério, calado, rústico. Talvez porque lembrou o meu pai simpatizei de cara, gratuitamente. Depois ao vê-lo na cozinha onde comanda os famosos jantares da casa me encantei de vez.

Melhor que descrevê-lo é contar algumas situações que vivi com este italiano grandão, sempre com a barba por fazer, andando calma e pesadamente pela cozinha da fazenda.

  • Ele mede a porção de arroz na mão, cada punhado que cabe na sua mão grande, corresponde a uma pessoa. Fácil assim, sem copos intermediários.
  • Toda vez que fatio o pão ou o queijo ele me olha dizendo: não corta tão fino, assim não se sente o sabor de nada.
  • O Roberto é um verdadeiro defensor dos produtos orgânicos e naturais. Não cansa de repetir que o vinho (produção biológica de um amigo) não faz girar a cabeça ou acordar com um gosto estranho na boca, porque não tem solfito, a substância usada normalmente para ajudar a conservar.
  • Ele pode gastar toda uma tarde preparando aquele desfile de pratos para o jantar ou fazê-lo em 20 minutos, igualmente delicioso. Igualmente tranquilo.
  • Outro dia fez uma brusqueta com queiijo de ovelha e marmelada de tomate e me contou que tinha feito aquela marmelada um tempo atrás, imaginando justamente a combinação com o sabor forte do queijo de ovelha. Lindo, não?
  • Eu gosto de ver tudo limpo na cozinha e não paro enquanto não terminamos. Final de semana ele vem, me tira da cozinha e diz que a vida não é só trabalhar, que eu preciso aproveitar mais...e lá vou eu pra praia, sob ordens do cuoco (o cozinheiro).
  • O jantar dura umas três horas. Entre cada ida e vinda à cozinha ele pode conversar com qualquer um, sobre qualquer assunto. Da história da Itália ao crudivorismo. Das melhores praias para tomar banho a como escolher uma melancia. Tudo com muito bom humor, aquele humor irônico, discreto.
  • Uma pessoa ao meu lado diz que o leite cru é muito pesado, difícil de digerir. Vejo Roberto crescendo do outro lado da mesa, ele olha a moça e começa uma verdadeira aula sobre as vantagens do leite cru e fresco, dos malefícios do leite de caixinha, que segundo ele não é leite... um belo texto! Nessa hora pude ver meu pai falando...
  • Ele é a personificação do slow food salentino, na verdade de toda Itália. Conhece toda a tradição alimentar do país, como se prepara, onde é cultivado. Sua filha vai no mesmo caminho e juntos, pai e filha fazem da cozinha um verdadeiro laboratório de degustação e conhecimento.
    O Roberto é um homenzarrão, mas tem uma delicadeza no paladar impressionante. No segundo dia já sabia que eu gostava de conhecer os sabores locais. E me faz provar cada coisa que acha digno de nota. Neste exato momento escrevo deitada na rede depois de ter provado a ricota ainda morna que ele acabou de fazer, deliciosa. Ele me pergunta:
    - Parece um doce, não?


    Não deixe de assistir este vídeo lindíssimo do Roberto preparando o pão no Sarruni.